História de um assalto

imagesOs últimos textos do Número f/, com excepção daquele em que me lamento por não saber o que fazer com a minha câmara digital, estão todos, digamos assim, imbuídos de um espírito optimista e eivados de boa disposição. Já chega. Não fui eu quem os escreveu, mas algum espírito bondoso e delicodoce que se apossou de mim nesta quadra natalícia. Os meus leitores sabem muito bem que sou um homem amargo e resmungão, pelo que, em perfeita coerência com a minha personalidade, o texto de hoje vai carregado de lamúrias, recriminações e azedume.

Aconteceu que no dia 24 de Dezembro, véspera de Natal, dei por mim com um rolo prestes a ser exposto – devia ter dez ou onze fotogramas por expor – e sem substituto à mão. Eu não sou nada do género de armazenar rolos no frigorífico: vou-os comprando à medida que necessito de novos e nunca tive mais que um de reserva – e foi só por duas ocasiões. Como se aproximava um feriado, temi que as dez ou onze exposições que me restavam não fossem suficientes. Só na tarde dessa véspera de Natal me lembrei de que podia precisar de outro rolo, pelo que marchei em direcção à baixa para comprá-lo. Sabia de antemão que a Câmaras & Companhia e a Máquinas de Outros Tempos estariam fechadas nessa tarde, mas teria sempre a AFF ou a Colorfoto.

Oh shit. Estavam ambas fechadas. Estava quase a desistir e a conformar-me com a depauperação de fotogramas para o feriado quando, ao descer a Rua de Sá da Bandeira, dei comigo num largo amplo da cidade do Porto onde há uma pequena loja de fotografia. Entrei e perguntei se vendiam rolos. A resposta foi positiva, o que me deixou animado – mas só por alguns momentos. Os rolos que se vendiam naquela loja eram todos da Kodak: um a cores (penso que o nome é C-200, ou qualquer coisa assim) e dois a preto-e-branco: o Kodak T-Max 100 e o T-Max 400. Nada de Ilford ou de Kodak Tri-X, portanto. Logo aí o meu entusiasmo começou a esmorecer, mas ainda havia de arrefecer mais.

Optei pelo T-Max 400. As condições de luz destes últimos dias têm sido favoráveis a velocidades ASA baixas, mas nunca se sabe quando a luz vai mudar e, de resto, os dias são mais curtos e escurece mais cedo. A opção por um rolo ASA 400 nesta época do ano é sensata e justificada. Não gostei do Kodak T-Max 100 e não me apetecia fotografar a cores, pelo que o T-Max 400 era mesmo a única escolha possível.

Saquei o cartão Multibanco para pagar. O lojista, que de resto até foi simpático e parece perceber bastante do assunto, informou-me sobre o preço com a frieza de um assassino profissional espetando uma faca no esterno da sua vítima: €8,90. Sim, leram bem: oito euros e noventa cêntimos. Eu, o novo Rei dos Otários, paguei esta pequena fortuna por um rolo que nem sequer é um dos meus preferidos. Paguei o preço de um rolo de slides a cores por um de negativos a preto-e-branco. O pior, contudo, ainda estava para vir.

No Sábado seguinte fui à Câmaras & Companhia levar o rolo que acabara de expor no dia de Natal. Fiquei a saber o preço que o Kodak T-Max 400, na sua versão de formato 135 com 36 fotogramas, custa numa loja decente: €5,80. O que quer dizer que paguei €3,10 a mais. Nem na fnac roubam tanto como naquela lojinha. Isto é um verdadeiro caso de polícia: se me tivessem encostado uma naifa às costelas e dito «passa para cá a carteira», não me teria sentido muito pior.

Nada pode justificar uma diferença de €3,10 entre produtos iguais desta ordem de valores. Poderíamos argumentar que, sendo adquiridos pelo comerciante em pequenas quantidades por a procura não justificar mais, os rolos implicariam prejuízo se fossem vendidos aos preços que a AFF pratica – mas, se isto é verdadeiro, por que raio é que têm rolos à venda naquele estabelecimento? Os que se interessam por fotografia analógica têm mais onde ir, o que inclui duas lojas altamente especializadas e outras duas, mais generalistas, ali bem perto. Se a procura de rolos é tão escassa naquela loja, faria mais sentido não os venderem.

Eu compreendo uma diferença de preços que ronde 1 euro. A Câmaras & Companhia não pode competir com a AFF ou com a Colorfoto, pelo que vende os rolos por um preço um pouco mais elevado que naquelas lojas. Isto é aceitável e justificável. Três euros e dez cêntimos de diferença é uma diferença absurda que não tem qualquer justificação. Aquele comerciante está a locupletar-se à custa das pessoas que não sabem que preços se praticam noutras lojas – ou de incautos como eu. Esta maneira de fazer negócio é simplesmente deplorável.

M. V. M.

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