Boyhood

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Passei uma parte substancial deste Domingo a ver um filme (na internet, que isso de ir ao cinema caiu definitivamente em desuso), coisa que raramente faço. Não sei por que vejo tão poucos filmes, porque já fui uma daquelas pessoas que podem ser consideradas cinéfilas: ia ao cinema sempre que tinha oportunidade e fui um frequentador do Fantasporto que assistiu à sessão de estreia. Hoje só vejo filmes que passam na RTP2 – o que inclui filmes altamente intelectualizados, como os de Michael Haneke – e um ou outro que desperte a minha atenção. O filme que vi hoje pertence a esta segunda categoria.

O filme chama-se Boyhood e foi realizado por Richard Linklater. Relata a vida, como o título sugere, de um rapaz e desenrola-se entre os seis e os dezoito anos dele, mas com uma particularidade que torna este filme extremamente original: o actor é sempre o mesmo. O que quer dizer que este filme demorou doze anos a realizar e acompanhou o crescimento do actor, Ellar Coltrane, que desempenha o papel de Mason Evans Jr.

Boyhood é um filme imensamente interessante. É terno, comovente e, ao mesmo tempo, perspicaz e inteligente. O filme começa na infância de Mason e da sua irmã Samantha, que assistem à separação dos pais (fabulosamente interpretados por Patricia Arquette e Ethan Hawke) e às duas relações que a mãe manteve posteriormente. Durante o tempo em que acção se desenvolve, Mason atravessa a adolescência, com todas as dúvidas e desilusões que surgem neste período da vida. O pai deixa de ser cool para se tornar num careta que conduz uma Dodge Caravan, a mãe envolve-se em relações que Mason e Samantha não compreendem nem aceitam; aquela fase em que os adultos deixam de ser modelos e passam a ser vistos como pessoas incompreensíveis (e incapazes de compreender) está soberbamente descrita neste Boyhood, assim como a chegada à idade adulta e o conhecimento da vida que se adquire nesse período. A história é singela: Mason é um rapaz que, a despeito de pertencer a uma família desagregada, pode ser considerado normal. Pode mesmo ser considerado estereotípico. Não há nada de heróico ou de vil na personagem: o filme é meramente o relato de um crescimento – simplesmente, este relato é feito de uma forma envolvente e com uma sensibilidade tremenda. Boyhood não é dramático, não é moralista nem tem uma mensagem social ou política: é, como disse, um relato. As idiossincrasias de Richard Linklater estão presentes e acompanham a evolução cronológica do enredo, como a condenação da invasão do Iraque, o apoio a Obama e a crítica ao culto das armas, mas este é um filme que não tem pretensões religiosas, políticas ou sociais. Mas é um filme bonito que se vê com prazer.

A minha curiosidade por Boyhood adveio das críticas que li – ainda não encontrei uma única que fosse menos que elogiosa – e, sobretudo, do facto de acompanhar o crescimento de Mason (ou de Ellar Coltrane, se quisermos) em tempo real: a acção começa em 2001 e termina em 2013 e o filme foi realizado durante todo este tempo. A minha curiosidade foi amplamente recompensada: Boyhood é excelente. Muito me surpreenderá se não ganhar uma mão-cheia de Óscares. Aliás, seria uma injustiça se não o fizesse.

O leitor estará, por esta altura, a pensar que este é mais um texto completamente fora do tema. Devo dizer que, quando me resolvi a ver Boyhood, não estava à espera de que a fotografia se intrometesse na minha visualização do filme nem esperava que tomasse parte dele, mas a verdade é que aconteceu. Aos quinze anos, Mason resolve tornar-se fotógrafo profissional. Uma das cenas que Richard Linklater engendrou para ilustrar a indolência, a indecisão e as dúvidas de Mason passa-se num laboratório de revelação. Não posso dizer que este facto tenha influenciado decisivamente a minha apreciação do filme – eu teria gostado de Boyhood se Mason tivesse decidido tornar-se engenheiro mecânico –, mas na cena que referi é dita uma frase que me pareceu extremamente interessante: o professor pergunta a Mason o que este pode trazer à fotografia que os outros não possam. Ora bem: esta é a pergunta que todos os amantes da fotografia deviam fazer a si mesmos. Nestes tempos em que todos se copiam uns aos outros e se limitam a seguir os trilhos que outros abriram, seria importante que cada um se interrogasse o que pode trazer de novo à fotografia. Porque não basta ser bom e dominar a técnica: é preciso que a fotografia seja uma emanação do interior do fotógrafo. Porque, como já escrevi aqui, «O que faz uma boa fotografia não é a câmara, mas a mente da pessoa atrás dela».

Não, o prazer que extraí de ver Boyhood não nasceu do facto de haver fotografia envolvida no enredo. Nem posso dizer que a frase a que aludi seja extremamente original, ou particularmente bem formulada. Boyhood seria um grande filme mesmo sem a vocação fotográfica de Mason. Simplesmente, houve um momento em que comunguei da visão do realizador. Também eu ando à procura daquilo que posso trazer para a fotografia que outros não trazem. Penso que toda a gente que usa a fotografia como meio de expressão devia fazer a mesma busca pela originalidade.

Já que estamos a escassos dias do fim deste ano maldito que foi 2014, ficaria bem escrever que este é o filme do ano. Simplesmente, como Boyhood foi o único filme de 2014 que eu vi, não posso fazer um juízo tão rotundo. Tudo o que posso fazer é aconselhar o leitor a ver este filme belíssimo. E não (apenas) pela inclusão da fotografia.

M. V. M.

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1 thought on “Boyhood”

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