Sobre fotografar à noite com película: comentário a um comentário

Gosto de ter leitores atentos, que acompanham o Número f/ e contribuem com os seus comentários.  Os comentários aos meus textos são parte integrante dos mesmos e merecem ser lidos com igual atenção. Se os aprovo – os comentários são moderados – é porque são pertinentes e o seu autor tem algo de relevante a dizer. Apesar de os comentários serem aprovados por mim, isso não significa que tenham de ser apologéticos; gosto quando os leitores exprimem pontos de vista diferentes dos meus, porque pode haver sempre algo a extrair dos seus comentários.

Um dos mais antigos, fiéis e participativos dos meus leitores é Ricardo Rubião, que, apesar de não conhecer pessoalmente, tem frequentemente contribuído com as suas opiniões. No último dos seus comentários, que foi escrito a propósito de um texto em que me lamentei por ter perdido por completo o gosto pela fotografia digital, Ricardo Rubião termina com esta frase: «Gosto muito de rolos, mas não me desprendo do digital por alguns motivos, entre eles, a capacidade de capturar imagens à noite». Ó Ricardo, que não seja por isso! É que fotografar à noite com película é perfeitamente possível, embora mais complexo por não haver a visualização imediata das fotografias.

É perfeitamente viável fazer fotografia nocturna com película. Simplesmente, a Fotografia Analógica Nocturna (FAN) impõe exigências de que a fotografia digital, pelos meios técnicos que nos pôs à disposição, nos livrou. Agora é tão fácil fotografar à noite que podemos dispensar os conhecimentos técnicos: basta puxar o ISO até 1600 ou 3200 e podemos fotografar à noite sem a maçada de usar um tripé. Contudo, para nós que fazemos parte dos 99% da população mundial e não podemos comprar câmaras profissionais, o uso de câmaras digitais coloca um problema – o ruído.

É aqui que entra em acção a película. Apesar de existir o equivalente do ruído digital sob a forma de grão, este é bem mais benigno para a qualidade da imagem. Pode até, em certas circunstâncias, contribuir para a atmosfera da fotografia. O ruído digital, esse, limita-se a ser destrutivo: destrói a agradabilidade da imagem, destrói os contornos dos objectos, destrói a veracidade das cores. A edição de imagem só contribui para destruir mais um bocadinho ao suavizar excessivamente os contornos, roubando nitidez à imagem. Claro que podemos sempre minimizar o ruído usando sensibilidades ISO reduzidas, mas isto obriga ao uso de tempos de exposição muito longos, com o subsequente arrastamento de motivos em movimento (o que, apesar de tudo, pode ser utilizado com propósitos estéticos).

Claro que o uso de película para fotografia nocturna implica conhecer muito bem a exposição, o que, por seu turno, obriga a uma longa aprendizagem. Afinal de contas, não temos um ecrã para fotografar em live view e ver a fotografia um segundo depois de ter sido feita, mas se virmos bem as coisas a fotografia digital não trouxe nada de novo. Apenas tornou tudo um pouco mais simples. Continua a haver apenas duas opções: ou se fotografa com sensibilidades baixas recorrendo a um tripé ou se segura a câmara com a mão usando sensibilidades elevadas. A vantagem do digital é que se pode alterar a sensibilidade accionando um botão, ao passo que na fotografia analógica é necessário recorrer a películas de velocidade ASA altas. Tudo o resto é exactamente igual.

Há, evidentemente, o factor da imprevisibilidade quando se fotografa com película; mas, quando se domina a exposição e se sabe o que se deve fazer – como, por exemplo, usar aberturas estreitas nas exposições longas –, a incerteza converte-se numa enorme alegria quando os resultados são bons. Há um elemento de desafio na Fotografia Analógica Nocturna que a torna particularmente aliciante.

Por tudo isto, não vejo razões para não usar uma máquina fotográfica de película à noite. Nada do que se faz com uma câmara digital está vedado a uma máquina analógica. Apenas recomendo algum cuidado na escolha dos rolos, porque o uso de película cuja cor é calibrada para a luz do dia, como a Kodak Portra, pode conduzir a resultados frustrantes.

M. V. M.

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2 thoughts on “Sobre fotografar à noite com película: comentário a um comentário”

  1. Fotografei muito, muito, mesmo muito à noite com película. Efetivamente, consegue-se resultados tão bons ou melhores do que com digital. A única limitação da película é com exposições “extremamente” longas. De resto, é perfeitamente utilizável.

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