Que farei com esta câmara?

img_20111A minha relação com a câmara digital que usei tão avidamente até descobrir as maravilhas da fotografia convencional está a desvanecer. A minha Olympus E-P1, que me ensinou a fotografar – pelo menos no domínio digital –, está agora confinada a um compartimento da mochila Lowepro que, por não a usar, faz as vezes de armário do meu material fotográfico. Junto com ela estão a Pancake de 17mm e um zoom que adquiri num um estado de ignorância próximo da cegueira ou da debilidade mental. E um flash, mais alguns acessórios que são agora completamente inúteis. (Vejam bem: cheguei a comprar uma base de couro para a câmara, naquele que deve ter sido o meu desperdício mais estúpido de dinheiro – a par da compra do zoom 40-150.)

Por vezes tento convencer-me que a E-P1 pode ser útil; que, em algumas circunstâncias, pode dar jeito ter uma câmara digital. De todas as vezes que me iludo com esta ideia, vêem-me logo à mente as razões por que já não uso esta câmara. As lentes, evidentemente: a Pancake é a lente que me fez perceber que sou um homem de primes, mas não gosto da sua distância focal: de todas as vezes que a uso estou a fazer de conta que é uma lente de 34mm, o que não é carne nem peixe: não me dá a perspectiva de uma grande-angular nem a de uma standard. (O zoom, esse, já o tinha deixado de usar muito antes de me converter à fotografia analógica.) E não é grande coisa opticamente: embora tenha boa resolução, é uma objectiva de qualidade medíocre que apenas presta um bom serviço pela correcção da distorção operada pela própria câmara e necessita de um bom programa de edição de imagem para corrigir as aberrações cromáticas.

Resolvi o problema das lentes comprando duas OM, que uso (usava) com a E-P1 por via de um adaptador. As coisas melhoraram substancialmente, mas a focagem manual com esta câmara é horrivelmente complicada: para obter uma boa nitidez é necessário ampliar a imagem que se vê no ecrã, o que por seu turno implica carregar em vários botões. É inacreditável o tempo que se perde a focar manualmente nestas condições. Mesmo se usar a E-P1 com a OM de 28mm a fazer as vezes de uma lente normal, o mais vulgar será usá-la na hiperfocal, perdendo o benefício da profundidade de campo estreita que tenho quando uso a OM com a lente 50mm-f/1.4 mas facilitando a focagem.

Pior do que ter de usar lentes sofríveis, porém, é ter de recorrer ao ecrã para compor a imagem. Depois de descobrir as maravilhas do visor de uma câmara reflex, tudo o resto parece ridículo – e isto inclui os visores de telémetro. Compor através de um ecrã é obtuso; satisfará os patetas que tiram fotografias com tablets (o que considero ser a forma mais absolutamente cretina de fotografar), mas nunca quem quer fazer boas fotografias. Nem sequer preciso de mencionar a potencial invisibilidade do ecrã sob luz adversa: o simples acto de usá-lo para compor e enquadrar é tão contra natura que não necessita que sejam listados outros defeitos. É tão simples como isto: sempre que peguei na E-P1 depois de ter a OM, levava a primeira ao nível dos olhos, como se a câmara tivesse um visor. Não tem. A E-P2 resolveu parcialmente este problema ao possibilitar a montagem de um visor electrónico, mas este é como se víssemos a realidade através da televisão, em lugar de usarmos a nossa percepção. E transforma uma câmara bonita num objecto grotesco.

Há muito de bom a dizer sobre a E-P1. Tem uma qualidade de imagem que, descontadas as limitações do seu sensor, pode ser considerada excelente. É uma câmara bonita e, sobretudo, faculta todo o controlo que quisermos ter sobre o processo fotográfico: posso fotografar no modo de prioridade à abertura, no de prioridade ao disparo ou no modo manual. Posso manter o ISO tão baixo quanto quiser e usar a medição pontual. A E-P1 não é exactamente uma point and shoot, embora possa ser usada como tal. Simplesmente, não sinto vontade nem necessidade de usá-la. Como também me custa desfazer-me dela, o seu destino mais provável é uma longa hibernação. Muito longa.

O facto de não sentir falta nenhuma da E-P1 faz-me meditar sobre a natureza da fotografia digital e o equipamento usado para a fazer. A vantagem de fotografar no domínio digital é poder fazer-se milhares de fotografias quase de graça, mas para que me serve isto se eu procuro que cada imagem seja original e única? A película serve-me bem melhor: com ela tenho mais consciência da unicidade e irrepetibilidade de uma fotografia. Quanto ao equipamento: uso uma câmara que foi lançada em 1975 e ignoro a outra, cujo lançamento foi apenas há cinco anos e meio. É bem possível que, se vendesse a E-P1, me oferecessem menos do que aquilo que paguei pela OM. A E-P1, que lançou um novo segmento na indústria fotográfica, está hoje obsoleta; a OM, embora restrita ao mercado de segunda mão, continua a ser procurada pelos entusiastas da fotografia analógica. Dentro de trinta anos, quem se lembrará da Olympus E-P1?

M. V. M.

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2 thoughts on “Que farei com esta câmara?”

  1. Olá Manuel, como vai? Li seu post. Bem, eu possuo uma OM-1, uma Trip 35 e uma OMD E M1. Gosto muito destas câmaras e uso todas elas. Gostaria de saber se conhece Tony Northrup, um fotógrafo norte americano. Depois dê uma pesquisada no You Tube sobre alguns videos em que ele explica a experiência de fatores de corte versus bokeh. Achei muito interessante. Gosto muito de rolos, mas não me desprendo do digital por alguns motivos, entre eles, a capacidade de capturar imagens a noite.
    Um forte abraço!

  2. Curioso a questão do digital. Pela minha experiência, comecei a fotografar com as Sony Mavica, no tempo em o armazenaento ainda era feito em Disquete!

    Mas só após vários, anos redescobri o prazer da fotografia com uma (analógica) Pentax MX e um 50mm, conjunto que me possibilitou aprimorar o controlo da técnico, da luz e momento.

    Curioso q só com a Fuji X100, voltei a sentir prazer na utilização do digital, passando a Contax e algumas Zeiss a ficarem em casa!

    De referir, que no percurso como fotografo, tb sofro esse problema, do equipamento q não sai de casa, com isso acentua-se o dilema, causado pelo risco de me vir a arrepender da venda de um equipamento, de que mais não seja tinha ainda algum valor emotivo..!

    Cumprimentos

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