A nova fotografia mais cara do mundo e um crítico de arte estúpido

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Há um tipo chamado Jonathan Jones que se arroga a qualidade de crítico de arte e escreve numa coluna do The Guardian. Tudo bem que ele tenha encontrado a sua oportunidade de brilhar num tablóide – o que é tão prestigioso como ser o vigilante de um aterro sanitário –, mas o homenzinho parece ter-se envolvido numa cruzada contra a fotografia.

Eu penso que este sujeito não pretende ser levado a sério, tal é a desmesura das tontices que escreve. Ou talvez tenha uma questão pessoal com algum ou alguns fotógrafos, não sei. Ou se calhar é apenas um cretino, um troll que quer chamar a atenção para a sua pessoazinha insignificante através de controvérsias que ele mesmo gosta de inventar. Ora, este Jones escreveu, há algumas semanas, uma verborreia infindável em que, sintetizando, entendia que as exposições de fotografia não faziam sentido; que as fotografias expostas eram planas e que as pessoas que se demoravam à frente das imagens expostas estavam a fingir que as apreciavam; depois prosseguiu com um relambório em que protestava a superioridade da pintura sobre a fotografia, porque aquela sim é uma arte e a fotografia não.

Agora o Jones voltou à carga, desta vez a propósito da nova fotografia mais cara do mundo, que é, desde esta semana, Phantom, de Peter Lik (imagem do topo). Logo a abrir, o indivíduo – pensar que há gente que é paga para escrever estas babugens! – sai-se com esta enormidade: «A fotografia não é uma arte». Eu, quanto a esta questão, divirjo de Michael C. Johnston, que, apesar de considerar que o Jones é um parvalhão (embora não o diga com estas letras todas), entende que aquela afirmação é um truísmo e que discutir a pertença da fotografia entre as artes é uma inutilidade porque a fotografia, de facto, não é uma arte. Apesar de ser um dos leitores mais ávidos do The Online Photographer, não posso estar de acordo. Quando menos, haverá sempre a questão da intenção com que se fotografa: se uma fotografia é feita com intenção artística e o seu autor domina a expressão de modo a criar uma obra (e não uma mera ilustração de um objecto real), essa é uma fotografia artística. Mesmo que não se conceda o estatuto de arte à fotografia – e eu concedo-o – haverá sempre fotografia artística.

A verborreia do Jones chegou ao ponto de embaraçar os editores do The Guardian, que se sentiram na obrigação de publicar uma outra coluna de opinião em que um tal Sean O’Hagan defende que a fotografia é uma arte e sempre o será. A verdade está algures pelo meio destes dois absolutos, porque apenas 1% das fotografias (ou menos) se habilita ao estatuto de arte. O resto é imagens que se colhem para ilustrar qualquer coisa.

Onde o Jones borra a pintura toda, porém, é na frase que se segue a «A fotografia não é uma arte.» Diz ele que é uma tecnologia; que, se ele mesmo fizer um lindo panorama com o seu phablet, foi o aparelho que o fez. Isto é simplesmente ridículo. Se levássemos esta lógica às últimas consequências, só as ideias poderiam ser reputadas de arte porque todas as manifestações artísticas exigem materialização através de instrumentos, sejam eles cinzéis, máquinas de escrever ou pincéis. E todas exigem técnica. Já agora, o Jones poderia também ter inferido que a literatura contemporânea não é arte porque os autores escrevem usando computadores, que são só tecnologia. A sua asserção é tão absurda que nem sequer merece ser discutida com um mínimo de seriedade.

As parvoíces que o Jones escreveu vieram a propósito daquela que é agora a fotografia mais cara de sempre. Apoda-a de oca e de cliché e considera-a de mau gosto. Deixem-me dizer que ele tem direito a ter a sua opinião, mas devia abster-se de exprimi-la desta maneira. Phantom é uma fotografia de tal modo abstracta que se torna difícil perceber que motivo está nela retratado. Só quando soube que era um canyon percebi a fotografia, porque antes de estar na posse desta informação cheguei a pensar que era uma radiografia (a sério!). Sabendo que é um canyon, não posso senão tirar o chapéu a Peter Lik e a esta fotografia: não é fácil obter um grau tão elevado de abstracção a partir de uma perspectiva tão ampla, mas o fotógrafo conseguiu-o, com o bónus de o raio de luz ter um ar fantasmagórico. Que não haja dúvidas: Phantom é uma fotografia de pura excelência. Saber se vale seis milhões e meio de dólares, porém, é outra questão.

O Jones devia reduzir-se à sua insignificância de crítico de arte. Por muita atenção que ele consiga à custa de frases bombásticas e estúpidas, ele nunca brilhará mais nem será melhor que os artistas que critica. Hoje Eduard Hanslick é um nome que apenas é conhecido pelo modo como quase destruiu a reputação de Anton Bruckner com as suas críticas. Pois bem: de Bruckner, ficaram-nos as suas maravilhosas 7.ª, 8.ª e 9.ª Sinfonias, bem como o magnífico Te Deum; de Eduard Hanslick ficou apenas a anedota. O mesmo acontecerá com o Jones, embora com a diferença de ser ainda mais irrelevante e ridículo que Hanslick.

M. V. M.

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