Lewis Baltz (1945-2014)

A minha erudição fotográfica é (ainda) muito limitada; cinge-se, na prática, aos nomes mais óbvios. Claro que é bom e saudável conhecer fotografias de Koudelka e Doisneau (e de Lewis Hine, Alfred Stieglitz, Martin Parr, Peter Turnley e esses todos), mas o mundo da fotografia é tão vasto que, provavelmente, nunca chegarei a conhecer a obra de muitos grandes fotógrafos. Ainda há pouco conheci uma pequena parte da obra de Ray K. Metzker, um fabuloso mestre do contraste, mas apenas soube da sua existência por causa da notícia da sua morte.

Desta vez aconteceu o mesmo com Lewis Baltz, que morreu no passado dia 22 de Novembro com 69 anos. Muito mais que Ray K. Metzker, lamentei só ter conhecido as fotografias de Baltz depois de ele ter morrido. Tal como com Metzker, a primeira coisa que fiz depois de ler a notícia da sua morte foi fazer uma busca – bendito seja o Google! – usando o nome «Lewis Baltz» como termo de pesquisa.

O que encontrei deixou-me um pouco perturbado: as fotografias que vi são-me de tal maneira familiares que me deixaram a pensar se não as conheceria já, sem contudo saber quem era o seu autor. Deixaram-me, sobretudo, a pensar que não há nada que eu possa fazer que não tenha sido já feito. Fotografias de lugares desertos, explorando a geometria das formas? Lewis Baltz chegou lá muito antes de mim. Ruínas? Também. Tal como automóveis, embora os de Baltz não sejam o motivo em si, mas parte da cena.

baltz-window_606

A fotografia de Baltz é uma geografia de subúrbios: armazéns, parques de estacionamento e lugares sem vida foram o seu território. A sua estética compõe-se de formas que dificilmente imaginaríamos poderem resultar esteticamente. Nelas o fotógrafo explorou as relações entre as formas, bem como entre a luz e a sombra. São fotografias de um enorme rigor geométrico e de composições extraordinarimente bem concebidas. Não pude deixar de pensar que mesmo o nosso excelente Edgar Martins se deixou inspirar por algumas das fotografias de Lewis Baltz, tal a similitude na obsessão pela simetria absoluta e pela simplicidade estrutural das imagens de ambos. Lewis Baltz foi um dos fotógrafos em cuja obra a influência do design foi mais evidente: a maneira como ele construiu as suas fotografias a partir de linhas estruturantes simples, encontradas em motivos que parecem desinteressantes a olhos destreinados, torna-o num daqueles fotógrafos que tiveram a capacidade imensa de, com a sua linguagem gráfica, erigir um estilo próprio que outros seguiram avidamente.

Como referi mais acima, ver as fotografias de Lewis Baltz deixou-me uma sensação estranha de dejà vu. Eu tentei explorar o mesmo tipo de linhas e motivos sem ter conhecimento da existência da sua obra. Ao descobrir as suas fotografias, senti-me como se tivesse passado muito tempo a tentar imitá-lo. Claro que isto era impossível, porque não conhecia a sua obra, mas o certo é que ele fundou uma estética que teve muitos seguidores. Não tenho dúvidas que, quando tentei explorar a geometria de lugares desolados, me deixei influenciar por ela – e, reflexamente, pelo seu criador.

Este é mais um dos grandes que desaparece. Felizmente, fica-nos a sua obra. Lewis Baltz foi, sem dúvida, um dos fotógrafos importantes da modernidade. Foi um daqueles capazes de ver beleza e potencial compositivo e estético onde outros apenas vêem desolação. Há muito a aprender com as suas fotografias.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s