Butthole surfer

Os que conhecem as minhas fotografias sabem que tenho vindo, desde há cerca de um ano, a desenvolver um interesse crescente por fotografias tendo o surf por tema. Este meu interesse nasceu, penso eu, de um mero acaso: um dia estava a fotografar nas imediações da Praia Internacional e, ao ver os surfistas no mar, pareceu-me que podia ser uma boa ideia fazer algumas fotografias.

Se bem o pensei, melhor o fiz. Com efeito, aquele lugar (ou spot, na gíria surfista) pode não ser o paraíso dos surfistas, mas é perfeito para fotografar. A areia lisa providencia reflexos que resultam extremamente bem e, como gosto de contrastes extremos e de chiaroscuri, as fotografias contra a luz que faço naquele lugar agradam-me sobremaneira (o uso dos Ilford, especialmente do Pan F, ajuda muito a obter estes contrastes). Lembro-me de ter escrito aqui sobre as minhas fotografias de surf; passo a citar: «A maneira como fotografo surfistas também não é exactamente aquela que vem à mente quando se pensa em fotografias de surfistas: normalmente imaginamos grandes planos de surfistas em acção, em cima das pranchas e enquadrados por ondas espectaculares. E – evidentemente! – essas fotografias em que pensamos são a cores. Um desporto como este exige cores. O que significa que faço tudo ao contrário: quando fotografo surfistas em acção, estes aparecem num plano longínquo; a maioria das minhas fotografias mostra surfistas a entrar ou a sair da água e alguns a fazer exercícios de aquecimento, ou simplesmente à espera de uma boa oportunidade para entrar na água. E, para agravar um pouco mais a condenação, as minhas fotografias são a preto-e-branco. A ignomínia torna-se completa por, ao invés de mostrar imagens perfeitamente iluminadas, optar por fotografar a contra-luz, obtendo silhuetas. Em termos simples, posso dizer que faço tudo ao contrário do que o senso comum manda.» Mas divirto-me. Acresce a tudo isto que é o único pretexto que tenho, de momento, para usar o poderoso bacamarte chamado Zuiko OM 135mm-f/2.8, que é possivelmente a minha melhor objectiva.

Este Domingo voltei a fotografar na Praia Internacional. Enquanto estava de pé sobre a areia molhada – fazer este tipo de fotografia requer muita paciência e bom calçado –, observei o comportamento dos alunos da escola de surf que funciona no Edifício Transparente ao entrar e sair do mar: antes de entrar, pareciam ter dificuldade em conter a ânsia de ir para as ondas; ao sair, muitos vinham eufóricos. E o ar inacreditavelmente saudável daqueles miúdos e miúdas! Não pude deixar de sentir uma curiosidade enorme, acrescida de uma ponta de inveja, pela alegria que aqueles surfistas pareciam sentir. De facto, cavalgar as ondas numa prancha deve ser uma sensação incrível; imagino que seja tremendamente excitante. Aquilo deve exigir bastante do corpo e da mente: deve requerer muita coordenação e equilíbrio, uma boa aptidão física e muita coragem e controlo.

Ora bem: durante essa hora e meia em que estive à espera de oportunidades para fotografar, foi-se-me formando uma das minhas ideias malucas: e se eu aprendesse a surfar? Ver a alegria dos surfistas deixou-me a imaginar como deve ser bom praticar surf. Uma das razões por que nunca pensei aprender surf antes foi o medo do fracasso, de não conseguir equilibrar-me sobre a prancha. Este é um medo estúpido: se outros conseguem, por que não havia eu de o fazer? A despeito da minha provecta idade, eu mantenho uma boa forma física – toda a gente devia praticar natação: é o melhor exercício que existe – e, francamente, se aprendi a lidar com uma câmara analógica aos 49, por que não havia de aprender surf aos 51? É daquelas coisas que só podem correr bem: é divertido e saudável. O pior que me pode acontecer é… não, não há nada de mau que possa acontecer. É tudo vantagens.

Sinto-me extremamente excitado com esta ideia. Não sei quando vou poder concretizá-la – espero que bem cedo –, mas já tenho o formulário de inscrição na escola de surf (o que, pelos padrões do M. V. M., equivale à celebração de um contrato-promessa). Provavelmente, com a minha idade, já não vou a tempo de competir com o Kelly Slater, mas não é bem esse o objectivo.

M. V. M.

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