Baldes de fotografias

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Agora fazem-se desafios semelhantes ao ridículo Ice Bucket Challenge no Facebook, mas em vez de baldes de água gelada, os participantes despejam fotografias. Ainda nesta «rede social», as pessoas continuam a despejar baldes de fotografias diariamente. O que, infelizmente, inclui consagrados como Alfredo Cunha. Qual o sentido disto não sei, mas se isto faz as pessoas felizes, pois que seja. O problema é delas, não meu. Se elas querem estar sujeitas a que outros se apropriem das fotografias sem poderem invocar direitos de autor, por mim tudo bem.

Eu também já fui mais ou menos assim, salvo na parte dos desafios (que só começaram este ano, na senda do Ice Bucket Challenge): ia a uma manifestação ou a um mercado e descarregava dezenas de fotografias em «álbuns» no Facebook. Nesse tempo a protecção dos direitos era mais eficaz, mas de pouco importava porque ninguém ia usurpar essas fotografias: eram uma merda. O que significa que, mesmo antes dos desafios, já eu despejava baldes de merda no Facebook. Oh well, como diria o Cónego da Abadia de Westminster (que decerto me perdoará mais facilmente que os leitores a inclusão de expressões vernaculares neste texto).

Todos nós sabemos o que é o Facebook, mas eu vou ilustrar aquilo para que esta «rede social» serve com um exemplo: há um par de meses, um artista de pseudónimo Woodkid, que sigo no Facebook por me ter apaixonado pela sua música, publicou uma fotografia que tinha por motivo os pêlos da barba que acabara de aparar. Dias mais tarde, o mesmo Woodkid publicou um desabafo em que exprimia a sua perplexidade por a sua fotografia dos pêlos da barba ter tido mais likes do que um um vídeo de música que publicara dias antes e demorara oito meses a produzir. Eloquente, não é?

Não é certamente nesta chafurdice chamada Facebook que eu quero publicar fotografias. Tudo o que faço é estabelecer ligações para as fotografias que publico no Flickr, cuja conta mantenho enquanto não me decido a ter um website (não estou a ser pretensioso: se Ctein mo aconselhou, não foi certamente para me adular, nem pelas ilusões que a sua amizade por mim lhe suscita – nem decerto por perceber pouco de fotografia). De resto, nem poderia voltar a publicar álbuns de mercados e manifestações porque, muito simplesmente, já não faço fotografia dessa maneira. Já não faço centenas de fotografias por dia nem me interessa voltar a fazê-lo.

A razão da minha escassa produção fotográfica está, como podem já ter calculado, relacionada directamente com a minha conversão à fotografia analógica, mas não apenas pela questão da capacidade limitada de armazenamento de imagens: usar rolos tornou-me consciente do facto de que cada fotografia deve ter um valor intrínseco. As minhas fotografias podem ser criticadas por serem, por vezes, um tudo ou nada parnasianas, mas esta é uma opção estética deliberada. Eu faço fotografia para exprimir graficamente o que vejo, não para mostrar aos «amigos» do Facebook onde estive ou o que comi. Não é este o meu propósito. Aliás, já não o era no tempo em que só fotografava com a E-P1: tomei consciência, ainda quando fotografava exclusivamente digital, de que a maneira como mostrava as minhas fotografias era um disparate: não era apenas os álbuns de mercados e manifestações no Facebook, era também a publicação de quatro ou cinco fotografias por dia no Flickr. Fotografias estas que, salvo algumas excepções, tinham zero interesse.

Já não me interessa fazer centenas de fotografias por dia nem mostrá-las às mãos-cheias. O que me interessa, neste momento, é fazer fotografias melhores: é libertar-me de modelos, tendências, escolas e modas para me concentrar em exprimir melhor as minhas ideias. Claro que uma fotografia de nada vale se não for vista por outros, pelo que continuarei a publicar no Flickr (e, enquanto não me fartar de vez do facebook, a estabelecer ligações para as fotografias publicadas), mas o meu propósito não é fazer fotografias para agradar aos outros e muito menos para ter muitos likes.

Penso que quem publica no Facebook devia fazê-lo com alguma circunspecção – como, por exemplo, faz Rui Palha. Antes de mais, pelos riscos de usurpação; depois, porque quem publica baldes de fotografias no Facebook está a contribuir, ainda que em pequena medida, para o abastardamento geral a que a fotografia, enquanto forma de expressão artística, está a ser sujeita. A massificação da fotografia está a destruir a sua capacidade de exprimir ideais artísticos ao banalizá-la e eu recuso-me a contribuir para que isto aconteça. Chamem-me o que quiserem.

M. V. M.

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