As ultra-grande-angulares e eu

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Ultimamente tem-me interessado fazer fotografia de arquitectura. No geral, para este tipo de fotografia é necessário usar lentes grandes-angulares. E eu tenho uma, com a distância focal de 28 mm. As grandes-angulares prestam-se à fotografia de arquitectura por duas razões: uma é o seu ângulo, que permite enquadramentos muito mais largos que as lentes normais; a outra é o facto de poder ser usada perto do motivo. No caso da minha 28 mm, posso aproximar-me até 30 centímetros do que quero fotografar.

Isto dá, evidentemente, imenso jeito quando quero fotografar em espaços confinados; neste caso, não preciso de me afastar muito para ter o enquadramento que quero – para caber tudo na imagem. Claro que estas lentes têm alguns problemas com os quais se deve ter cuidado ao fotografar as linhas direitas que a arquitectura necessariamente implica: se o posicionamento vertical da câmara não for perfeito, as linhas verticais convertem-se em diagonais acentuadas, porque esta é a marca distintiva das grandes-angulares. Claro que nada substitui uma lente de controlo de perspectiva, mas estas são absurdamente caras. Além deste, há outro problema mais ou menos típico das grandes-angulares: a distorção pode arruinar completamente a geometria da composição.

Ora bem: muitas vezes, quando fotografo em espaços exíguos, sinto o meu dogma de que tenho todas as lentes que preciso ligeiramente comprometido. Há locais onde bem podia usar uma lente de distância focal mais curta, para fazer com que coubessem mais objectos no enquadramento. A questão é – será que me dava jeito ter uma lente de 21 mm?

Se pusermos as coisas em termos de estrita utilidade, a resposta é sim. Algumas fotografias de interiores não ficaram como eu queria porque não pude enquadrar tudo com os 28 mm da lente que uso. Simplesmente, essas ocasiões não foram assim tantas, nem a fotografia de arquitectura de interiores é a minha maior prioridade. Além disto, há o problema da perspectiva: todas as lentes, com excepção das ditas standard ou normais, colocam problemas de perspectiva, que são particularmente graves no caso das grandes-angulares e ultra-grandes-angulares. Todos já vimos fotografias em que estes problemas se manifestam: se fotografarmos uma pessoa com os braços estendidos na direcção da câmara com uma ultra-grande-angular, as mãos vão aparecer caricaturalmente grandes; isto torna-as inaptas para muitos géneros de fotografia, desde logo os retratos.

Também a fotografia de rua é problemática com lentes ultra-grande-angulares. Apesar de fotógrafos eminentes as usarem frequentemente, o efeito pode ser francamente desagradável: é que as grandes-angulares, no geral, produzem um tipo de distorção denominado anamorfose. Os objectos curvos que surjam nos cantos do enquadramento tornam-se alongados, fazendo com que uma bola de futebol se converta numa de râguebi e que a cabeça de uma pessoa se assemelhe à do Alien. A distorção anamórfica, que se manifesta já nas lentes de 35 mm, é tanto mais grave quanto mais curta for a distância focal. Até 28mm é tolerável, mas em distâncias mais curtas a imagem pode tornar-se verdadeiramente grotesca.

É decerto muito interessante poder obter as diagonais extremamente pronunciadas que as lentes de 18 ou 21 mm produzem, mas estas distâncias focais não são nada versáteis. Mesmo em fotografias de interiores as distorções podem criar efeitos indesejáveis, como pavimentos planos que parecem curvos. Estas são lentes de que convém não abusar, porque as suas características de distorção as reduzem a aplicações muito limitadas. São excelentes para paisagens, mas pouco mais.

Deste modo, quanto a grandes-angulares, 28 mm é o meu limite. Esta é a distância focal de referência para grandes-angulares por alguma razão. É que os 28 mm são um compromisso perfeito entre utilidade e distorção. As lentes de 28 mm são suficientemente longas para vários tipos de fotografia – mesmo a de rua não lhes está de todo vedada – e são úteis para fotografar a curta distância do motivo. Além de serem ideais para paisagens e para arquitectura, desde que, no caso desta última, haja espaço suficiente para enquadrar devidamente.

M. V. M.

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