Stills

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Eu não sei a origem de algumas expressões com que a asfixiante cultura anglo-saxónica bombardeia o mundo, mas há uma interessante que é «I’ve seen the future and…» (depois completa-se a oração a gosto, conforme a ideia que fazemos do futuro). Pois bem, eu vi o futuro da fotografia e não gostei do que vi. Pensava que as selfies iam dar a última machadada no prestígio da fotografia, mas é pior que isso: as selfies são, apesar de tudo, fotografias. Estúpidas, mas fotografias. O que vai acontecer é, pura e simplesmente, eliminar-se o próprio conceito de fotografia. Mais ainda: eliminar as próprias fotografias e substituí-las por algo completamente diferente.

Tenho notado, com efeito, uma undercurrent (já que estou numa de anglo-saxonismo) que retira às imagens o próprio estatuto de fotografia. O advento do vídeo faz com que algumas pessoas tenham começado a aludir às imagens fotográficas como stills. Agora vai-se mais longe e já se acredita que os stills são o futuro da fotografia: em lugar de se fotografar, fazem-se clips de vídeo e depois isolam-se fotogramas. Não, não devemos preocupar-nos com a qualidade da imagem, porque estes stills serão, preferencialmente, retirados de vídeos filmados em resolução 4K ou maior. O que me preocupa é outra coisa, mas antes de entrar nesse capítulo, um pouco de história:

Stills houve-os sempre. Desde que há cinema que existem. Com efeito, foi dos filmes que nasceram os stills, que eram imagens estáticas (daí o nome) extraídas das películas. Simplesmente, o seu objectivo era promover dos filmes de onde eram retirados, numa altura em que a televisão ainda não existia e a publicidade tinha o seu meio de eleição na imprensa escrita. Os stills serviam, deste modo, para publicitar filmes em anúncios e em cartazes.

Apesar de a película de 35mm usada na fotografia desde a invenção da Ur-Leica ser adaptada da usada nos filmes, o cinema e a fotografia nunca foram mutuamente excludentes e os stills nunca tiveram a pretensão de substituir a fotografia. O cinema nunca ameaçou a fotografia porque nunca pôde substituí-la enquanto fixação plástica de um momento. O vídeo não responde às mesmas exigências criativas que a fotografia, nem serve o mesmo propósito, pelo que as duas formas de expressão sempre coexistiram pacificamente. Até agora.

Há filmes cuja qualidade (a da realização, não necessariamente a da imagem) é tão elevada que se poderia isolar alguns fotogramas e fazê-los passar por fotografias de autor. Lembro-me, assim de repente, das cenas de exterior (e também de algumas de interior) de Noites Brancas, o filme de Luchino Visconti baseado num conto de Dostoiévski, cujos fotogramas davam excelentes fotografias de rua. Contudo, não me parece que seja esta a direcção que a actual febre do 4K indica. Mais me parece que, com os consumidores a exigir 4K mesmo em câmaras compactas, vamos ver stills retirados de vídeos de gatos, festas de aniversário e das parvoíces que costumam servir de motivo para publicar no Facebook.

Penso, de resto, que as redes sociais como o Facebook serão as principais impulsionadoras desta tendência, já que, para quem passa todo o seu tempo no Facebook, será muito mais interessante carregar e ver vídeos do que fotografias. Estas pessoas nem sequer se preocuparão com os stills, os quais são preconizados por quem tem, apesar de tudo, preocupação com a qualidade da imagem, mas vão acabar por implementar o vídeo como o meio de eleição para as publicações nas redes sociais.

Isto pode significar que, em breve, vamos ter mais videógrafos que fotógrafos. Além de serem providenciadas câmaras que filmam vídeo em 4K (como a Panasonic GH4 e a Sony A7S, tenho notado que os fabricantes de cartões de memória têm vindo a aumentar a capacidade dos seus produtos, já havendo alguns com 512 GB. Não existem, deste modo, obstáculos à marcha inexorável do vídeo, que derrubará a fotografia à sua passagem. Isto, mesmo se é uma perspectiva apocalíptica e irrealista, não é bom: perder-se-á um meio de expressão que, embora comungue a captura da imagem com o vídeo, é completamente diferente. Tenho a certeza de que, tal como agora vemos fotojornalistas a promover descaradamente o iPhone, no futuro vê-los-emos promovendo câmaras que filmam em 4K e que servem, secundariamente, para fazer fotografias. Vai tornar-se desnecessário treinar os sentidos para fotografar. Isto causa-me mais receio pelo futuro da fotografia do que as selfies e os smartphones (os quais vão ser equipados com um chip para 4K não tarda nada).

M. V. M.

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