Scanner sacana

v750m_fca-cnr-nn_690x460Ainda tenho muito a dizer quanto às digitalizações de negativos. Embora tenha aderido irrestritamente à digitalização, este processo não deixa de ter os seus problemas e de suscitar algumas reservas.

Começando por estas últimas, devo dizer que há uma reserva que já venci há muito: a de que não faz sentido fotografar com película se é para converter os fotogramas em ficheiros digitais. Os que apontam esta aparente contradição argumentam que é uma complicação desnecessária, porque será muito mais simples, do ponto de vista do processo que conduz à imagem final, fotografar com uma câmara digital. Hmm… não. Quando eu conseguir reproduzir com uma câmara digital os resultados que obtenho fotografando com o Ilford FP4 e digitalizando os negativos, poderei atender a este argumento, mas a realidade é que, com o equipamento digital que tenho, não há comparação possível: a película é triliões de vezes melhor.

O que a digitalização faz é dar a possibilidade de corrigir (digitalmente) imagens feitas com rolos de película. Os problemas de um fotograma de um rolo não podem ser resolvidos na revelação, porque não se podem individualizar as imagens: os trinta e seis fotogramas vão ser todos revelados da mesma maneira. O facto de serem convertidos em ficheiros digitais permite corrigir a exposição, o nível, a perspectiva e o recorte. Isto não é mau: não é anátema, blasfémia, sacrilégio ou pecado. De resto, terei sempre os negativos, pelo que a pureza analógica fica sempre salvaguardada. Se quiser ampliar a imagem em papel de brometo de prata, é muito mais simples fazê-lo a partir do negativo do que se quiser fazer o mesmo com ficheiros digitais. Perguntem a Sebastião Salgado (ou leiam aqui).

A minha única reserva é que a digitalização de negativos a preto-e-branco pode ser extremamente problemática. Um negativo é isso mesmo: as partes claras da imagem surgem escuras na película (e vice-versa) e depois há que inverter os tons de novo na ampliação ou na digitalização. Isto, para um scanner, é uma tarefa bem mais difícil do que parece: no caso de as fotografias ficarem sobreexpostas, a luz do scanner vai ter dificuldades incontáveis em converter o fotograma numa imagem positiva. Isto acontece porque as partes sobreexpostas da película surgem nesta como negros, os quais são tão mais densos e profundos quanto maior for a sobreexposição. A luz do scanner vai ter imensa dificuldade em penetrar na camada de negro do fotograma e isto tem por resultado uma exacerbação do grão na imagem e, quando a sobreexposição é manifestamente exagerada, o surgimento de padrões de ruído que destroem completamente qualquer verosimilhança que a fotografia pudesse ter com a realidade. Mesmo quando a sobreexposição é apenas ligeira, uma fotografia a preto-e-branco que esteja sobreexposta vai forçosamente apresentar quantidades consideráveis de grão, mesmo que tenha sido feita com um rolo ASA 50, 100 ou 125.

Deste modo, o scanner obriga a ser especialmente cuidadoso com a exposição, devendo expor-se para as sombras quando se usa película negativa para preto-e-branco. Desde que se tenha este cuidado, o problema da acentuação do grão nas digitalizações pode ser ultrapassado, mas esta não é a única dificuldade quando se trata de digitalizar negativos de preto-e-branco: é que o scanner, ao contrário do que faz com as películas a cores, não filtra as impurezas que existirem. Se surgirem pêlos, partículas de poeira ou outras impurezas no negativo ou no vidro, estas vão figurar na imagem – o que nem sempre é agradável de se ver. Aliás, nunca é agradável ver um pêlo numa fotografia, mesmo que seja mostrado em TIFF a 16 bits. E também já me apareceram umas listas verticais preocupantes, cuja origem não conheço, em algumas fotografias.

É evidente que estas são imperfeições que podem ser eliminadas porque passam, com a digitalização, para o domínio digital. Eu não gosto de mexer muito nas digitalizações porque tenho este princípio de fazer bem à primeira, mas não vejo nenhum inconveniente em melhorar uma fotografia. Nem me vejo a mandar imprimir todos os fotogramas de um rolo em formato 15×10, como se fazia no passado. Prefiro a digitalização. Sou um amante da fotografia que gosta de película e vive na era digital. Como muitos, sei que os dois domínios não são inconciliáveis. O scanner pode trazer alguns problemas, mas não existe, tanto quanto o meu conhecimento atinge, outra maneira de digitalizar negativos.

M. V. M.

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