À volta de um anúncio

O que vão ler a seguir pode parecer-vos lúgubre, mas a minha intenção não é deixar o leitor deprimido; este texto tem algumas alusões à morte, mas isso não significa que tenha mergulhado num estado mórbido (e muito menos que queira arrastar os leitores para uma depressão, embora seja caso disso). Escrevo este pequeno prefácio como mera advertência para o que procurarei relatar a seguir, que não posso de maneira nenhuma reputar de optimista nem considerar que se vislumbra um futuro cheio de promessas. Para a fotografia, claro.

Pois bem: no Domingo passei os olhos pelo jornal, como sempre faço nas manhãs de fim-de-semana. O jornal era o Público, ao qual já me referi muitas vezes como o porta-estandarte da fotografia de qualidade na imprensa portuguesa. Quando leio o Público, já não espero que uma fotografia me surpreenda pela sua excelência: a publicação de fotografias geniais desperta-me a atenção, mas não posso dizer que me surpreenda. O que me espanta é ver más fotografias no Público.

Ora, foi exactamente isto que aconteceu hoje. A bem da verdade, a fotografia que vi não é da autoria de nenhum dos fotojornalistas que trabalham para o Público. Era uma fotografia inserida num anúncio de falecimento. Um obituário, portanto. Pode parecer mesquinho ou despropositado que, enquanto a família da pessoa falecida sente a dor da ausência, eu esteja a preocupar-me com o que é, bem vistas as coisas, uma minudência, mas a fotografia a que me refiro é péssima. Penso que não fizeram favor nenhum àquela pessoa ao escolher a fotografia a que me refiro. É uma fotografia em que tudo está mal: começando pelo mais importante, a expressão foi – para ser elegante – mal capturada. A pessoa figura de perfil, com os olhos baixos e uma expressão casual de quem estava numa festa de aniversário. A fotografia foi obviamente tirada com material inferior, pelo que enferma de todos os defeitos que uma fotografia pode ter: falta-lhe nitidez e contraste, há demasiado ruído e a iluminação é péssima: foi usado um flash e os olhos da senhora surgem vermelhos. Até o corte é mau, com a borda inferior da imagem interceptando a linha do queixo.

Eu detestaria ser identificado através de uma fotografia destas, com olhos vermelhos como um figurante do vídeo de Thriller; recusar-me-ia a autorizar a publicação de uma fotografia daquelas num jornal, mas posso estar isolado neste capítulo. O que me preocupa, no meio de tudo isto, é a possibilidade de aquela ser a melhor fotografia de que a família dispunha para participar publicamente o óbito daquela pessoa. Ou – o que é ainda pior – que aquela seja a única fotografia que a família tinha. Apesar de este assunto ser absolutamente secundário, a publicação de uma participação de falecimento acompanhada de uma fotografia tão má chocou-me. Não pela falta de qualidade da fotografia em si, evidentemente, mas por ser absolutamente indigna. É, na verdade, quase um insulto à pessoa falecida. Pergunto-me como foi possível que alguém se lembrasse de autorizar a publicação de uma fotografia tão imprópria num anúncio que se pretende digno e solene. É de uma falta de gosto e de consideração que se me afiguram completamente incompreensíveis.

Como a defunta aparentava ter uma certa idade, recuso-me a acreditar que não houvesse algures uma fotografia feita por um profissional competente. Houve tempos em que as fotografias tipo-passe eram requeridas para documentos oficiais e eram feitas em estúdios de fotografia por pessoas que sabiam o que estavam a fazer. Ainda hoje há profissionais desses, mas aparentemente há quem pense que eles são dispensáveis e basta ter um iPhone para se obter de graça o que de outra maneira teria de ser pago a um fotógrafo. Esta é uma estultícia, porque não é qualquer um que tem as aptidões para fazer uma fotografia que dignifique uma pessoa. Há profissionais tão bons que conseguem dar uma imagem favorável mesmo a pessoas a quem, por assim dizer, a natureza não beneficiou.

Preocupa-me que este tipo de fotografia esteja em declínio por as pessoas pensarem que podem substituir os profissionais. Não podem. No preço de uma carteira de fotografias tipo-passe não se paga só o papel e a impressão, nem a amortização do equipamento: pagam-se anos de experiência e de saber profissional. Paga-se o olhar para uma pessoa e saber qual o melhor ângulo, determinar a iluminação mais correcta, escolher o fundo mais apropriado. Estes, contudo, são méritos que muitos não reconhecem. O que importa é que as pessoas percebam quem era a falecida. (Se pensarmos bem, isto tem um paralelo com a maneira como hoje as pessoas se exprimem, especialmente por escrito…)

Por este andar, ainda vamos ter oportunidade de ver um anúncio de falecimento ilustrado por uma selfie, com o defunto ou defunta a fazer uma duck face. São tempos terríveis que esperam a fotografia.

M. V. M.

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