Eu e a Leica M6

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Ontem tive nas mãos uma Leica M6 com uma Summicron 50mm. Mesmo se não posso dizer que esta experiência me deixou obcecado, posso contudo afirmar que as Leicas são câmaras muito especiais.

O que impressiona de imediato, quando se vê uma destas Leica, é a sua estética. Esta é uma máquina fotográfica extremamente bonita: compacta, com flancos redondos, um revestimento de uma textura perfeita e aquele visor perfeitamente implantado… não há dúvida: a leica M6 é linda. A câmara que tive nas mãos é preta, o que a torna mais distinta que as versões prateadas. O facto de a lente ser pequena contribui para o apelo desta M6. O único aspecto controverso desta estética é a manivela para rebobinar o rolo, que fica num plano oblíquo, mas esta é uma solução que, além de prática, resulta bem esteticamente.

Quando se pega numa Leica M6, o mais natural é ficar-se surpreendido com o peso. Esta máquina é extremamente pesada para o seu tamanho. O que transmite imediatamente uma impressão de solidez e deixa adivinhar que é robusta e durável, mas induz o pavor de se deixá-la cair. O melhor é usá-la sempre com uma alça. Mesmo com este peso, a Leica M6 tem uma boa ergonomia – se considerarmos que não tem pega – e manuseia-se facilmente.

O meu problema com esta Leica é exactamente aquilo que a torna especial: é uma câmara de telémetro. A meu ver, o telémetro foi uma resposta inteligente para o problema de focar sem usar o fastidioso método de focar à zona. Imagino que tenha sido uma inovação que deixou a comunidade fotográfica muito feliz quando apareceu, mas hoje o telémetro pode ser considerado um sistema antiquado e desnecessariamente complexo. E, devo acrescentá-lo, pouco preciso. Para focar bem com uma câmara de telémetro, é necessário que existam linhas muito bem definidas e contrastantes no enquadramento. Mesmo quando se consegue focar bem, subsiste a questão da impossibilidade de prever a profundidade de campo, a dificuldade em conjugar o visor com lentes de diversas distâncias focais e os diversos problemas trazidos pelo enquadramento, desde ter de recorrer a linhas gravadas no visor até à paralaxe – apesar da anunciada correcção automática. Com efeito, é extraordinariamente difícil enquadrar com uma câmara de telémetro. Não é impossível, mas requer muita prática. O que é certo é que, na experiência que fiz com a Minolta 7S, cuja única semelhança com a Leica M6 é ter um telémetro, raramente atinei com o enquadramento: elementos que pretendi excluir apareceram na imagem, e o oposto também aconteceu.

O telémetro, para resumir tudo a uma só palavra, não é fiável. A invenção do sistema SLR devia ter condenado o visor de telémetro à obsolescência, mas este último teve sempre adeptos – os puristas que entendem que só aquele visor oferece a experência de ver a cena da mesma maneira que a vêem com os seus olhos –, o que levou a que a Leica insistisse na série M até hoje. Não posso, de forma alguma, negar que a Leica M6 é uma máquina fotográfica extremamente desejável: quanto mais não fosse, por permitir usar as fabulosas lentes de baioneta M. Contudo, e mesmo se é muito mais preciso focar com esta câmara do que com a Minolta 7S (eu sei, eu sei: esta é uma comparação descabida. Não precisam de mo lembrar), a Leica não deixa de ser uma máquina de telémetro.

E nem sequer menciono a incrível complicação que é instalar e retirar o rolo, operações que implicam desmontar a base da máquina e levantar o painel traseiro, ou o preço. Uma coisa, porém, é certa: a qualidade das fotografias que esta máquina faz não tem paralelo. Instalar um Kodak Tri-X numa Leica M6 é, só por si, garantia de fazer fotografias maravilhosas (desde que tenhamos um bocadinho de critério na escolha dos motivos, claro…). Será que esta qualidade faz com que valha a pena ter uma Leica em lugar, digamos, de uma Nikon FM3A? Não sei. Para dominar uma Leica, precisava de muitos meses a usá-la intensivamente. Ou fazer as vinte mil fotografias a que Cartier-Bresson se referia.

M. V. M.

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