A cidade dos arquitectos (1)

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Vivo numa cidade que tem diversos exemplos de boa arquitectura. Afinal, não é por acaso que Souto de Moura e Siza Vieira têm o seu gabinete no Porto (fica a trezentos metros de minha casa). Estes arquitectos, que podem ser citados entre os melhores do mundo – ambos ganharam prémios Pritzker –, tiveram uma influência imensa, tendo o último criado uma verdadeira escola de arquitectura.

A arquitectura de Siza baseia-se na filosofia, que remonta à escola Bauhaus, de precedência da função sobre a forma. São edifícios construídos de dentro para fora, sendo a estética determinada pela utilidade do edifício. Muitos descrevem os edifícios de Siza como bunkers, mas eu não. Porque sou, sobretudo, um apreciador de ângulos pronunciados e linhas escorreitas. Além disto, a arquitectura de Siza Vieira vive, em grande medida, da luz. Os postigos, frestas, janelas e portas de Siza deixam entrar a luz necessária à iluminação diurna, pelo que, no mesmo imóvel, uma janela amplíssima pode surgir ao lado de frestas e postigos estreitíssimos. Isto, evidentemente, dá um ar pouco homogéneo à estética dos edifícios – o que pode ser exacerbado pela presença frequente de estruturas de betão destinadas a controlar a incidência da luz solar –, mas eu gosto. As linhas de Siza são extremamente fortes e singulares. As suas concessões ao estilo são poucas e determinadas pela necessidade simbológica, como a pála do Pavilhão do Atlântico e a porta da Igreja de Marco de Canaveses.

Ontem andei pelo Planeta Siza Vieira. De manhã, estive no Bairro da Bouça, que é a prova de que a habitação social pode ser arquitectonicamente tão digna quanto outra construção qualquer. De tarde, fui à Fundação de Serralves. Em ambas as ocasiões, pude retirar enorme prazer fotografando os jogos de luz e sombra que aqueles edifícios permitem. O Bairro da Bouça é um exemplo que, provavelmente, é ensinado nas boas faculdades de arquitectura. Tudo ali é, em simultâneo, aberto e resguardado: as habitações permitem a necessária privacidade, mas estão inseridas num espaço amplo e aberto. No Bairro da Bouça são impossíveis o recantos obscuros, sem gente, onde se consomem drogas, se verte lixo ou se praticam actividades, digamos, nauseabundas, que se vêem nos bairros sociais. Tal não é possível pela concepção do próprio espaço: quem entra no bairro tem a percepção clara de todo o edificado. E, como Siza é o mestre da luz, não há recantos mal iluminados, o que desincentiva as actividades que referi: todas as passagens têm as suas frestas, tão amplas quanto a necessidade de iluminação, e são pintadas com cores que reflectem bem a luz. É uma arquitectura incrivelmente bem pensada.

O Museu de Arte Contemporânea não é diferente, a não ser na função. Se a arquitectura de Siza vive dos interiores e da luz, o M. A. C. é o paroxismo desta concepção. Aqui, porém, Siza permitiu-se enorme criatividade nas aberturas destinadas à passagem de luz, como aquele janelão enorme ao fundo das escadas que descem até à cafetaria. É para mim motivo de permanente espanto ver, do alto da escada, uma janela totalmente preenchida pelo verde da relva. É magnífico. Contudo, esta janela ilumina a escada e está ali sobretudo para essa função. O mesmo quanto à incrível clarabóia, que banha de luz o hall do museu e o 1.º piso: é simplesmente espectacular. Siza Vieira privilegia a luz natural, pelo que os seus espaços são, no geral, amplos e airosos – quando necessitam de o ser: também podem ser obscuros, se é isso que se pede de uma divisão, mas não conheço nenhum espaço concebido por Siza que seja soturno ou claustrofóbico. Ou simplesmente feio. Pelo contrário, a construção interior do M. A. C. é de tal maneira sofisticada que alguém como eu, que adora ângulos, linhas escorreitas e jogos de luz e sombra, não pode deixar de visitar aquele espaço e retirar enorme prazer de fotografá-lo. (Continua)

M. V. M.

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1 thought on “A cidade dos arquitectos (1)”

  1. belo texto, em especial o último, sobre Serralves; julgo perceber exactamente o que queres dizer. melhor que o Museu de Serralves, só mesmo a Casa de Serralves.

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