Para que servem as teleobjectivas (e os cuidados a ter quando se usam)

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Já tenho vindo a escrever isto desde muito cedo, quando este blogue ainda se chamava “ISO 100”: as lentes têm uma apresentação muito diferente da perspectiva conforme a sua distância focal. Embora esta asserção me possa fazer ganhar a alcunha de Captain Obvious, parece-me que isto é algo que quem se inicia na fotografia deve ter em mente: usar uma grande-angular não é o mesmo que usar uma lente normal e esta última não se assemelha, no seu uso, a uma teleobjectiva.

Muitos tendem a pensar que as lentes se usam em função do enquadramento. Assim, usa-se uma grande-angular quando se pretende incluir muitos objectos na imagem e uma teleobjectiva para isolar um motivo. Na prática, isto é verdadeiro, mas os efeitos da distância focal escolhida vão muito para além dos diferentes enquadramentos que proporcionam.

Outra percepção muito comum é a de que as teleobjectivas são usadas para ir buscar motivos distantes. Também isto é verdade – qualquer fotógrafo com interesse em ornitologia pode confirmá-lo –, mas é, do mesmo modo, insuficiente para compreender o que as distâncias focais de mais de 60mm fazem com a imagem.

É tudo uma questão de perspectiva. Literalmente, e não num sentido figurado. De um modo geral, a perspectiva comprime em todas as dimensões da imagem – altura, largura e profundidade – à medida que se avança na gama de distâncias focais. As grande-angulares expandem a perspectiva, exacerbando a sensação de profundidade; as teleobjectivas comprimem a perspectiva, sendo que, nas de maior alcance, se pode perder quase por completo a noção de profundidade. Pelo meio estão as distâncias focais ditas normais ou standard (entre os 40 e os 60 mm (*)), que são assim denominadas por apresentarem proporções semelhantes às que vemos com os nossos olhos.

Quando se usa uma grande-angular, os objectos situados nos planos mais distantes surgem com uma dimensão extremamente reduzida, o que faz com que estas lentes devam – dependendo, contudo, das opções estéticas e da intenção do fotógrafo – ser usadas próximo do motivo. Com as lentes normais, a fotografia torna-se mais natural, mais próxima da visão humana: as proporções são mais fiéis ao que vemos com os nossos olhos.

As teleobjectivas são mais problemáticas: a sua prodigiosa compressão da perspectiva tem, desde logo, o efeito de o enquadramento ser estreito, mas a altura e a profundidade podem ser apresentadas de uma forma de todo em todo indesejável: a noção de profundidade tende a perder-se, fazendo com que um motivo distante surja na imagem com dimensões demasiado semelhantes às do mais próximo; quanto à altura, o uso de uma teleobjectiva pode fazer parecer com que os motivos na parte superior da imagem pareçam precipitar-se para a frente, criando a ilusão que estão num plano mais adiantado do que estavam na realidade.

As teleobjectivas têm aplicações muito específicas. Servem, sobretudo, para fotografar motivos distantes que se pretendam apresentar com uma dimensão aceitável quando não nos podemos aproximar deles, o que está muito para além do que as lentes normais conseguem fazer (e, evidentemente, completamente fora do alcance das grande-angulares). Poderia alguém pensar que usar outro tipo de lentes poderia ser viável no caso de o fotógrafo poder aproximar-se do motivo, mas a apresentação dada por cada distância focal é muito diferente. As grande-angulares têm formas de distorção, como a distorção anamórfica, que as tornam inaptas para, por exemplo, fazer retratos. E nem sempre podemos aproximar-nos dos motivos para que estes fiquem suficientemente isolados usando uma lente normal. Assim, há cenas fotográficas em que só o uso de grandes distâncias focais é viável.

As teleobjectivas têm, contudo, uma característica que facilita o isolamento do motivo, evitando que a tremenda compressão da profundidade e altura produza efeitos negativos na imagem: a sua profundidade de campo é extremamente reduzida. Isto faz com que o motivo, que surge devidamente focado, não se confunda com os planos anterior e posterior, uma vez que estes aparecerão desfocados na imagem, mas tem a contrapartida, aliás decorrente das distâncias focais que caracterizam estas lentes, de deverem ser usadas na abertura máxima ou próximo dela.

Claro que o uso das diferentes distâncias focais não se destina apenas a fazer com que caibam mais ou menos objectos no enquadramento. Esta característica de compressão extrema da perspectiva das teleobjectivas pode ser usada intencionalmente, com efeitos criativos. É o que acontece com os retratos e algumas paisagens em que se pretende fazer avançar o plano de fundo. Simplesmente, para se poderem usar desta maneira, as teleobjectivas precisam de ter bons valores de abertura, o que implica que sejam caras. Os zooms mais correntes, com aberturas máximas f/4.5-5.6, não são uma boa escolha. Não há como escapar a isto: uma boa teleobjectiva é necessariamente cara. Contudo, estas lentes não são uma necessidade primordial. Muitos fotógrafos usam apenas grande-angulares e lentes standard, vivendo extremamente saudáveis e felizes com esta dieta de distâncias focais. As teleobjectivas devem, pois, ser vistas como lentes para aplicações muito específicas.
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(*) Ainda hoje existe um interessante debate sobre qual a distância focal que melhor imita a percepção humana, existindo apologistas para as distâncias de 43, 45 e 50 mm.

M. V. M.

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