Sunny 16

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E se a Minolta 7S me libertasse do jugo opressivo do tirano malvado a que chamamos «fotómetro»? Talvez o facto de o seu fotómetro estar a medir incorrectamente venha trazer-me mais conhecimentos, sendo um daqueles males que vêm por bem. Claro que haverá sempre a dificuldade no manuseamento dos anéis de controlo da abertura e do tempo de exposição da Minolta, mas seria deveras precioso se eu adquirisse o hábito de fotografar sem ajudas. Do ponto de vista estético, não faria fotografias melhores por ter este conhecimento, mas estaria mais bem preparado para usar máquinas sem fotómetro ou cujo fotómetro não fornece indicações fiáveis, como a Minolta.

Antes da invenção do fotómetro, os fotógrafos recorriam a uma sabedoria fundada em anos de prática: conheciam a lei da reciprocidade a fundo e sabiam qual a exposição adequada para cada situação fotográfica. Claro que o fotómetro veio reduzir drasticamente as possibilidades de erro, mas a sua existência nunca desobrigou de dominar a exposição: apenas tornou a tarefa mais simples. Quando a fotografia se generalizou, com câmaras como a Kodak Brownie e a Leica I a livrarem os fotógrafos de carregar câmaras de grande formato, os fotómetros ainda não existiam; os fotómetros mais antigos eram os ditos de extinção e o primeiro foi patenteado em 1941. Só mais tarde surgiram os fotómetros de selénio e de células CdS, que possibilitaram a incorporação nas câmaras. Na falta de um aparelho capaz de medir a luz, tornou-se imperativo que as regras da exposição fossem facilmente assimiláveis para os adquirentes das Brownies e das Leica I, o que levou à formulação de auxiliares que, não obstante serem por natureza imprecisos, serviam contudo como orientação. Deste modo, rapidamente surgiram cábulas e regras de bolso para determinar a exposição correcta.

Uma dessas regras é a que se tornou conhecida como Sunny 16. A sua formulação é simples: num dia de sol, selecciona-se o valor de abertura f/16 e faz-se coincidir o tempo de exposição com a velocidade ASA (ou ISO, se preferirem) da película. Deste modo, se usarmos um rolo como o meu favorito Ilford FP4, a exposição correcta será obtida com a abertura f/16 e um tempo de exposição de 1/125; se a velocidade for ASA 400, a abertura manter-se-á em f/16, mas o tempo de exposição será 1/500 (salvo se a máquina oferecer a possibilidade de regular o tempo de 1/400).

Simples, não é? A partir daqui é relativamente fácil calcular, com base na lei da reciprocidade, a exposição correcta para diferentes condições de luz: à medida que esta diminui, aumenta-se a abertura. Mais simples que isto não pode haver. É como se a câmara fosse usada no modo S, com a diferença de nos substituirmos ao fotómetro na escolha da abertura. Confirmei a validade desta regra do Sunny 16 com a E-P1 e com a OM-2 e, mesmo se é possível fazer ajustamentos mais precisos com a primeira, os valores da exposição afiguram-se correctos. Se juntarmos a isto a latitude da película, esta é uma regra que parece poder ser aplicada com confiança.

É evidente que esta é uma regra aproximativa que, embora parta do conhecimento científico – a exposição tem a luz por objecto, fazendo assim parte da física – é essencialmente empírica, porque baseada nas regras da experiência: aliás, eu tenho as minhas objecções quanto a chamar-lhe uma regra: é mais um guia. Mesmo se ainda não conheço os resultados da minha primeira experiência, feita com a Minolta e um rolo Agfa APX 400 numa tarde que alternou entre céu limpo e nublado, já estou a antever uma ligeira dificuldade por não ser possível, no meu caso concreto, fazer a correspondência exacta entre a velocidade ASA e o tempo de exposição. Contudo, pode ser um guia extremamente útil. E posso considerar isto um treino para quando finalmente puder comprar uma TLR. Se tiver sucesso nas minhas experiências, poderei dispensar o fotómetro. Andar de fotómetro (externo) na mão é algo que está inteiramente fora de questão: para tirania já me basta um fotómetro que bate mal a obrigar-me a aprender estas ciências arcanas todas.

(P. S.: Tomei conhecimento desta regra depois de a Minolta me ter sido entregue por R. S. D. na Câmaras & Companhia; quando eu ia a sair da loja, R. S. D., ao aperceber-se do meu desânimo por o fotómetro da Minolta funcionar deficientemente, lançou-me esta fórmula enigmática, como se dissesse para si mesmo: «agora vais para casa a matutar nisto». E fui mesmo. Sempre que vou àquela loja, trago comigo mais um pouco de sabedoria!)

M. V. M.

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