Corporate image

10176211_766000156790689_1564392599460444018_nTodos os mupis da minha cidade estão ocupados com cartazes encomendados pela Câmara Municipal do Porto a um tal White Studio. Estes cartazes inserem-se numa campanha que custou 40 mil euros à tesouraria do município e visa renovar a imagem da cidade. A meu ver, falharam por completo. Tentaram dar à cidade uma corporate image, mas tudo o que conseguiram fazer foi um monte de clichés asininos para tentar impressionar e atrair turistas (como se ainda tivéssemos poucos).

O grafismo é demasiado óbvio: tem inspiração nos azulejos – o que, além de ser pouco original, levanta a dúvida se a azulejaria é uma arte que caracteriza a cidade do Porto – e pretende representar todos os símbolos da cidade. Se olharmos com atenção para o painel que foi pomposamente apresentado na Câmara Municipal do Porto há cerca de três semanas, veremos que está lá tudo o que aparece nos postais ilustrados e nos guias rascas para turistas backpackers: os balões de S. João, a Torre dos Clérigos, a sardinha assada e todos esses lugares-comuns que os turistas tanto gostam de fotografar com os seus telemóveis. Um enorme amontoado de clichés estilizados.

Esta nova corporate image (suponho que as mentes luzidias que criaram este trabalho gráfico adoram expressões todas tecnocráticas como esta) da cidade do Porto inclui um statement, que essas pessoas devem ter achado imensamente poderoso: a palavra «Porto» em letras carregadas, bem no centro dos cartazes, terminando com um ponto final. Hã… desculpem, mas isto não tem nada de original: a Fiat fez isto em 1988 com o Fiat Tipo (e acabou por chamar Punto ao seu modelo mais vendido). Não sei qual foi a intenção destes designers: talvez dar expressão a um eventual arroubo de orgulho («é o Porto e ponto final») ou outra coisa qualquer. Só sei que isto me lembra os automóveis Fiat.

Como se tudo isto fosse muito bonito, ainda aproveitaram para renovar o logótipo do município. O resultado (imagem do topo) assemelha-se a uma tentativa de fazer trabalhos gráficos com um ZX Spectrum de 1983. Provavelmente pensaram que era moderníssimo – não tenho dúvidas que a palavra «giro» foi a que mais se ouviu quando o pateta que criou esta imagem a mostrou lá no White Studio –, mas é apenas um desenho grosseiro. Tosco. Artesanal. Infantil. Inimaginativo e feio. O anterior logótipo podia ser muito óbvio, mas de todos os logótipos de municípios que já vi, era o melhor.

porto-logo-graf

Eu até podia suportar tudo isto, mas esta campanha custeada pelos contribuintes, além de ser pouco ou nada original, é uma afronta à cidade. Reparem que ainda não aludi, até esta altura, ao aspecto mais importante deste design: a cor. É que a cor predominante nesta campanha é o azul. Reality check: as cores do município são o verde e o branco. O azul e branco é do Futebol Clube do Porto. São coisas diferentes, mas pelos vistos há quem queira misturá-las. Eu não sou exactamente um doente da bola, mas reconheço que o Futebol Clube do Porto contribuiu para a projecção do nome da cidade. Isto é uma coisa; outra é pretender subalternizar a imagem da cidade à do clube. Este é importante para os seus adeptos, mas não define a cidade, nem esta devia precisar de ser associada ao clube para ganhar notoriedade. Colar a cidade ao FC Porto é parolo, terceiro-mundista e ignobilmente estúpido. Os portuenses não são todos doentes da bola, e mesmo a maioria dos apaixonados do desporto é suficientemente lúcida para fazer a separação entre a cidade e o seu clube mais importante. Tanto assim é que deram duas maiorias absolutas a um executivo camarário presidido por um homem que afrontou o FC Porto e terminou com o conúbio que existia entre a câmara e o clube no tempo de Fernando Gomes e Nuno Cardoso.

Esta campanha é desnecessária e completamente inerme. Uma cidade não é uma empresa, por muito que o discurso económico domine a vida nos nossos dias. Não precisa, deste modo, de uma corporate image. A Câmara Municipal do Porto não está a fazer favor nenhum à cidade ao tentar impor os gostos clubísticos dos membros do seu executivo a todos os munícipes e ao Porto: pelo contrário, está a diminuir-nos e a fazer com que nos apodem de parolos e fanáticos.

bandeira
Estas são as cores da minha cidade!

Eu recuso-me a aceitar que se renegue a história para tentar impor uma visão tão estreita e estupidificante da cidade. Não concedo que, pelo facto de o presidente da câmara ser adepto do referido clube, se tenha de subordinar a cidade à imagem deste último, como se civilização e futebol fossem uma amálgama e os interesses do clube fossem os do município. De uma vez por todas: a cor do município do Porto não é o azul. Não se pode passar uma esponja sobre a história porque se gosta muito de um clube, por mais importante que este seja para a cidade.

O Dr. Rui Moreira até pode mandar pintar a cidade toda de azul e branco, mas não pode eliminar a história. Quando votei na coligação que agora administra a cidade, foi com a esperança que o actual presidente continuasse o que o seu antecessor fez de bom e melhorasse o que havia a melhorar. Esta campanha de corporate imaging é um péssimo começo.

M. V. M.

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2 thoughts on “Corporate image”

  1. MVM tens toda a razao, é completamente ridiculo e parolo, mas faz como eu e em voz alta diz isto: “podia ser meneses, podia ser o meneses, podia ser o meneses”.

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