Uma exposição fascinante

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Já fiz referência, neste blogue, à minha militância na Federação das Colectividades do Distrito do Porto. É uma experiência que está a chegar ao fim – o exercício dos actuais órgãos cessa em Fevereiro de 2015 –, mas foi (está a ser) extremamente enriquecedora. Provavelmente, quando o tema de conversa é colectividades, o que vem de imediato à mente do leitor médio do Número f/ são antros frequentados por alcoólicos incrivelmente mal vestidos e fluentes em vernáculo, mas esta ideia é injusta e reducionista. É certo que este estereótipo existe, mas é muito pouco representativo do fenómeno que é o associativismo. Este é muito mais amplo do que tascos que apenas são associações no Registo Nacional de Pessoas Colectivas. Seja como for, os quase nove anos na Federação trouxeram-me uma experiência de vida insubstituível. Mesmo o contacto com as tais colectividades de bairro trouxe-me importantes lições. Há muita gente de bem naquele meio.

O meu papel na Federação tem sido, no essencial, o de dar apoio às suas associadas. Muitas associações constituídas ao longo destes anos no distrito do Porto foram-no com a ajuda da Federação; posso orgulhar-me de muitas terem estatutos elaborados por mim e de todos estes documentos terem passado incólumes pela inspecção impiedosa do Ministério Público. Entre todas as associações que ajudei a constituir contam-se algumas que se dedicam à arte, o que significa que, felizmente, ainda há quem entenda que vale a pena desenvolver actividades artísticas colectivamente.

Foi assim que conheci António Domingos, um licenciado em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes do Porto e pintor de não pouco talento. Procurou os serviços da Federação por querer constituir uma associação denominada A Cadeira de van Gogh (a cadeira, não «a orelha», por aparentemente ter existido uma discussão que envolvia Vincent van Gogh e uma cadeira). Ajudei na elaboração dos estatutos e a Federação encarregou-se de todas as formalidades relativas à constituição da associação. Em consequência, A Cadeira de van Gogh está hoje filiada na Federação das Colectividades do Distrito do Porto.

Foi natural, como devem imaginar, que, quando A Cadeira de van Gogh convidou a Federação das Colectividades para assistir à inauguração de uma exposição de fotografias de António Domingos, eu tenha estado presente. Não apenas em representação da Federação, mas por um interesse directo e pessoal. E também pela curiosidade: sabia que António Domingos era pintor, mas não o sabia fotógrafo. Conjecturei que veria fotografias feitas com recurso a uma linguagem próxima da pintura, e não me enganei.

As fotografias que vi n’A Cadeira de van Gogh são abstractas: são fragmentos de objectos reais que, retirados do seu contexto global, ganham uma dimensão e significado muito diferente daquele que têm enquanto objectos preexistentes. Acima de tudo, as fotografias de António Domingos – que são sucedâneos da pintura, já que A. D., por motivos que não quis indagar, deixou de poder pintar – são de um rigor geométrico quase obsessivo. Valem pelo contraste entre a escorreiteza das linhas que as estruturam e as texturas dos objectos fotografados. Apesar da simplicidade da construção, estas fotografias vivem da riqueza das texturas dos materiais que nelas figuram: a ferrugem dos portões, o grão da madeira, a aspereza das paredes, o granulado do zinco, os fragmentos de tinta. Foi esta riqueza que levou a que a exposição fosse baptizada À Superfície, pois é da superfície dos objectos que aquelas fotografias nos falam. As dezassete fotografias são, muitas delas, visões alternativas dos mesmos objectos, mas todas elas são válidas e são representações diversas e autónomas, cada uma tendo um valor próprio apesar de se fundarem no mesmo motivo.

Este contraste entre a simplicidade das linhas e a complexidade das texturas é deveras fascinante, mas o que mais me impressionou nas fotografias foi o brilhantismo com que António Domingos deu um estatuto artístico a temas que estão debaixo dos nossos olhos e pelos quais passamos diariamente sem neles reparar. Ao autonomizar fragmentos desses objectos, A. D. confere expressão a objectos que muitos poderiam considerar desinteressantes: portões, cercas, janelas emparedadas. O que A. D. fez, com estas fotografias, foi brilhante: isolou fragmentos desses objectos e converteu-os em expressões fotográficas com vida própria.

Fotografias abstractas como estas fazem-me por vezes pensar se as minhas fotografias têm algum tipo de interesse. Ao contrário das de António Domingos, as minhas não apresentam nada de novo, nada que surpreenda. É como se estivessem (as minhas, claro) num patamar inferior da linguagem fotográfica. Esgotei todos os elogios que me vieram à mente na curta conversa que travei com António Domingos: as suas fotografias estão num nível de sofisticação a que poucos – muito poucos – são capazes de ascender. Acima de tudo, são a demonstração palpável de que a fotografia, a despeito de tudo, é uma arte, uma forma de expressão tão válida e nobre como qualquer outra arte visual. Quando saí do belíssimo edifício da Rua do Morgado de Mateus onde A Cadeira de van Gogh tem a sua sede, senti-me mais rico: vi fotografias que são arte – no sentido mais puro desta expressão.

M. V. M.

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