A regra (uma adenda ao texto anterior onde o autor explica por que as suas concepções estavam, afinal, erradas)

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Tenho agora por definitivo que a melhor metodologia para fotografar com rolos a preto-e-branco é expor para as sombras. Este foi, de resto, um conselho que me foi dado há muito mas que optei por não seguir. Agora, ao jeito de mea culpa, vou tentar explicar porquê:

Muitas das concepções que erigi, no que respeita à estética do preto-e-branco, basearam-se em imagens que via na internet de contemporâneos como Rui Palha. Não pretendo, ao dizer isto, mostrar menoscabo por Rui Palha (que tenho como um dos nomes maiores da fotografia dos nossos dias) ou qualquer outro dos contemporâneos; quero, simplesmente, afirmar que tentei transpôr o look daquelas fotografias para as minhas: queria por força que as minhas fotografias fossem muito low key, brooding, moody e outras expressões de língua inglesa que caracterizam sombras profundas, contrastes pronunciadas e atmosferas densas. Como se tentar criar uma linguagem a partir da dos outros não fosse suficientemente asinino, ainda cometi outro erro de palmatória: é que as fotografias que via e tomei como referência não pertenciam ao mesmo domínio das minhas. Rui Palha fotografou a maior parte das imagens que de uma maneira ou de outra me influenciaram com uma Fuji X100 – uma câmara digital. O mesmo quanto a muitos outros fotógrafos que se tornaram referências no preto-e-branco.

Ora, os princípios da fotografia digital a preto-e-branco são exactamente os inversos dos da fotografia convencional. Os problemas da exposição são completamente diferentes daqueles que são colocados pela película: esta tem uma latitude na exposição que o digital não tem, latitude essa à qual acresce a existência de uma etapa que só por uma analogia muito forçada se pode transpor para o processo digital: a revelação. Ora, o sensor digital não tem esta latitude; a sua resposta nos extremos da gama de tons é linear e abrupta, colocando problemas de ordem completamente diferente. No digital há que ter um cuidado constante com as altas luzes, porque os pequenos diodos de que os sensores são compostos saturam facilmente e causam o estouro das altas luzes com tanta maior facilidade quanto menor for a área do sensor. A regra, na fotografia digital, é a antagonista da aplicada na película de preto-e-branco: no digital expõe-se para as altas luzes, deixando para a edição de imagem a recuperação (ou não: depende das escolhas estéticas do fotógrafo) do pormenor escondido nas sombras.

Portanto, aquelas fotografias que via de seres solitários caminhando em túneis escuros, cujo estilo tentei emular, são obtidas medindo a exposição nas luzes ou, quando isso não é possível, com muito Photoshop (termo que, como sabem, denomina não apenas os programas da Adobe, mas toda a edição de imagem). Ora, estes resultados, por muito apelativos que sejam – e são-no, caso contrário não teria tentado replicá-los – são praticamente impossíveis de reproduzir na fotografia convencional sem detrimento da qualidade da imagem. Expor para as luzes com película para preto-e-branco não resulta em imagens low key, brooding ou moody: resulta apenas em imagens subexpostas de onde toda a informação contida nas sombras desapareceu. Claro que se pode fazer isto propositadamente, com intenção estilística: é a maneira de fazer silhuetas ou chiaroscuri. Mas fotografar assim tem um preço muito alto no exacerbamento do grão presente na imagem – especialmente se os negativos forem digitalizados, caso em que o scanner induz ruído.

E agora eu pergunto – há algo errado no aspecto das fotografias em película a preto-e-branco? Serão elas menos artísticas do que essas fotografias digitais que tomei por referência? A resposta é não – mas com um grão de sal: não são piores, mas decididamente são diferentes. Será essa diferença suficiente para optar pelo digital e processar as imagens de modo a dar-lhes aquele aspecto que referi? Aqui a resposta é, resolutamente, um não rotundo. Fi-lo durante demasiado tempo sem conseguir dar às minhas fotografias algo que tivesse um mínimo de verosimilhança com as fotografias analógicas, apesar de ter um programa de edição de imagem tão poderoso como o DxO Optics. Em contrapartida, quando uso os Ilford, tenho todo o contraste e nitidez de que necessito – sem os exageros de atmosfera por que me deixei tentar.

De resto, as fotografias com película são mais autênticas. Quando se consegue um bom equilíbrio tonal – o que implica saber cuidar da exposição –, a beleza de uma boa fotografia feita com um bom rolo vem imediatamente ao de cima. Sem Nik Silver Efex, sem precisar de manipular curvas de tons no computador.

M. V. M.

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