O que me interessa agora

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As fotoreportagens não foram o único assunto pelo qual perdi interesse. Quando comecei a fotografar, fi-lo como se fosse um omnívoro insaciável: fotografava tudo. Ele era flores, paisagens, comboios, arquitectura, pormenores urbanos, arrastamentos… tudo o que me aparecesse à frente. Hoje sou bem mais selectivo e abandonei completamente alguns desses assuntos.

Tomemos o exemplo das flores: o que me fascinava, ao fotografá-las, não era a beleza dos motivos: era a técnica. Aquela coisa do bokeh parecia-me maravilhosa; quando tive uma lente que me permitia reduzir drasticamente a produndidade de campo, isolando a flor dos planos anterior e de fundo, despendi horas infindas no Jardim Botânico a fotografar flores. Isto foi também o resultado de ver muitas fotografias no Facebook, mas o que mais me interessava, quando fotografava flores, era mesmo a técnica. Uma das coisas que aprendi, ao longo destes pouco mais de quatro anos, foi que uma fotografia não tem qualquer valor se apenas se basear na técnica.

Durante algum tempo dediquei-me também a ir para a beira-mar fazer longas exposições, obtendo o arrastamento das ondas. Este foi um tipo de fotografia que abandonei, pelo mesmo motivo que deixei de fazer fotografias de flores: era só técnica. Ambos estes assuntos têm, aliás, uma característica em comum: são irremediavelmente banais. Há triliões de fotografias destas a circular em todo o mundo. Muitas são espectaculares e bonitas, mas vê-las é fastidioso.

Com as paisagens é diferente, porque nunca me dediquei verdadeiramente a elas. Talvez por viajar relativamente pouco, ou por falta de aptidões, mas o que é certo é que fotografar paisagens nunca me fascinou. Há um motivo para esta perda de interesse: ao longo do tempo, fui-me apercebendo que não me interessavam fotografias que não tivessem gente no enquadramento. Ou melhor: as pessoas até podiam não estar nas fotografias, mas a sua presença tinha de estar implícita. Os automóveis que fotografo, por exemplo, podem não ter ninguém lá dentro, mas são um artefacto, uma criação humana, e a sua função é deslocar pessoas. Ou dar-lhes prazer, ainda que meramente visual. O mesmo com os edifícios, que existem em função das pessoas, e muitos outros motivos.

A fotografia que faço hoje tem de narrar vida. Uma fotografia sem gente lá dentro, ou que não tenha implícita a vida das pessoas, tornou-se-me algo absolutamente inconcebível. Não vale a pena. É evidente que há dezenas de coisas que merecem ser fotografadas, mesmo que não tenham uma relação directa com pessoas, mas a vida é impossível sem pessoas. Uma fotografia sem pessoas – ou que não as tenha implícitas – parece-me irremediavelmente vazia e sem sentido. No mínimo, as fotografias têm de ter vestígios de vida.

Isto pode parecer contraditório com o que escrevi antes sobre a minha aversão a fazer arremedos de reportagens, porque este género de fotografia descreve a vida como poucos. Contudo, não há aqui qualquer contradição: a vida não precisa de ser descrita através da amostragem de eventos públicos (e, inversamente, podem ser feitas fotoreportagens que não ilustram a vida). É uma questão de linguagem, e a reportagem é uma a que não adiro. Em contrapartida, porém, não tenho dúvidas que a minha apreciação da chamada fotografia de rua contribuiu para a minha preferência por fotografias que narram a vida. Vida num sentido estrito, evidentemente: as plantas e as bactérias são formas de vida, mas o que me interessa é o pulsar da vida. É a cidade e as suas ruas e pessoas.

Por tudo isto, o meu interesse por fotografias que não tenham uma ligação com a vida tem vindo a diminuir. Mesmo a fotografia de automóveis me deixa ambíguo: se é certo que os automóveis existem em função das pessoas, e se é verdadeiro que são motivos que me interessam sobremaneira, por vezes sinto as fotografias que faço como fúteis, sem vida. Contudo, também é certo que todas as regras comportam excepções. Estou receptivo a fotografar assuntos que não tenham que ver com a vida se forem suficientemente interessantes. Desde logo, se contribuirem para fotografias dinâmicas e fortes. Nestas coisas nunca se pode ser dogmático, mas continua a ser certo que tenho caminhado no sentido de excluir das minhas fotografias tudo o que não esteja relacionado com a vida das pessoas e tudo aquilo em que ela se manifesta.

M. V. M.

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