Crónica de fim-de-semana, parte 1

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De volta à escrita depois de quase uma semana sem publicar nada no Número f/. Esta ausência não se deveu a nada de especial: foi apenas o resultado de uma semana de trabalho particularmente exigente – o que foi agravado pela crise do CITIUS, questão que não quero abordar aqui –, que teve um efeito pernicioso: quando não estava a trabalhar, estava demasiado cansado para escrever sobre fotografia. (Embora tenha tido tempo para descobrir a obra fotográfica de Bill Brandt e a música do saxofonista Lucky Thompson, com as quais, inexplicavelmente, nunca me preocupara.) Hoje é domingo e estou confinado a ficar em casa por razões meteorológicas, pelo que não tenho qualquer razão para me abster de escrever.

Ontem fui deixar um rolo na Câmaras & Companhia para revelar e digitalizar. Mais um Ilford FP4. O décimo. Comprei dez exemplares de um dos rolos mais caros para preto-e-branco, mas só enquanto usava o último deles é que me apercebi que ainda não dominava a arte de expor negativos de preto-e-branco. (Isto não é muito abonador para a credibilidade do blogue e do seu autor… mas também o Número f/ nunca quis arvorar-se num blogue de referência, antes sendo a narração de uma aprendizagem.) Seja como for: na Câmaras & Companhia havia um workshop de fotografia de colódio húmido, do qual me esquecera completamente. Como tinha outros planos para a tarde, não fiquei para participar. Uma das razões é que ia estrear um rolo Ilford Pan F, de que gosto especialmente pelo contraste e pela sua aptidão imensa para silhuetas e chiaroscuri, pelo que já tinha decidido ir fazer algo que não fazia há muito e me deu um especial prazer fazer com o primeiro Pan F que usei: fotografar surfistas na Praia Internacional.

Deslocar-me de automóvel entre a Rua Mártires da Liberdade e a fronteira costeira entre Porto e Matosinhos implica uma opção. O mais natural seria tomar a Rua do Campo Alegre e ir pela Foz, ou descer até à marginal, mas em ambos os casos ficaria exposto a um trânsito infernal de domingueiros. A melhor solução pareceu-me ir pela Via Rápida e pela Circunvalação. Apesar de um pouco de trânsito na rotunda AEP (antes chamada “Rotunda dos Produtos Estrela”), tudo correu como previsto, sem grande trânsito.

Simplesmente, como sempre acontece quando as coisas correm bem demais, tinha uma enorme surpresa reservada. Tal como o workshop do colódio húmido se varreu da minha mente, também me tinha esquecido da Color Run (eu prefiro a grafia colour, que não é uma americanice, mas os promotores da corrida são parolos e preferem a grafia dos USA). Sim, aquela corrida que serve sobretudo para estragar câmaras e lentes por causa da tinta que só na aparência é inofensiva. Quando estava prestes a chegar ao cruzamento da Vilarinha, deparei com o maior engarrafamento em que estive metido na Estrada Exterior da Circunvalação. Depois descobri que toda a marginal de Matosinhos estava cortada ao trânsito e não havia lugares para estacionar (vim a descobrir um no sítio menos plausível: a Rua Brito Capelo!). Quando saí do carro já tinha pouca motivação para ir fotografar, depois da seca de ter estado meia hora em engarrafamentos, mas aquela ficou reduzida a quase nada quando descobri que a maré estava cheia e o mar completamente flat, o que é muito mau para a prática do surf. Depois de duas ou três fotografias, resolvi guardar a máquina e deixar as fotografias de surfistas para a manhã seguinte. Assim, com um pouco de sorte, teria aquele areal molhado que produz reflexos espectaculares, teria melhor luz e uma maré mais favorável à prática do surf.

Como os meus planos fotográficos raramente resultam, na manhá seguinte (a de hoje) estava a chover. Os planos foram literalmente por água abaixo. Voltando ao dia anterior, quando deixei a praia a corrida estava no fim. Uma multidão de seres pintados com cores vivas desfilava pela marginal de Matosinhos. Há um ano, tivesse eu uma película a cores ou a E-P1 à mão, ter-me-ia entretido a fotografar aquelas pessoas coloridas, mas não tinha nem uma nem outra. Mesmo que tivesse, não faria essas fotografias. Porque a) a Color Run é uma patetice, e b) concluí que já não tenho qualquer interesse em fazer pseudo-reportagens. (Continua)

M. V. M.

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