Da liberdade

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Honeste vivere, alterum non lædere, suum cuique tribuere. Estes são os preceitos do direito, mas não precisei de os aprender no 1.º ano jurídico, na cadeira de Direito Romano, para me conformar com eles. Porque, felizmente, fui educado para viver honestamente, não prejudicar outrem e atribuir a cada um o que é seu antes de me dar para citar latinadas,o que só me aconteceu na faculdade. (Mais tarde soube que S. Tomás de Aquino tinha uma fórmula semelhante, distinguindo entre justiça geral, justiça comutativa e justiça distributiva, mas como sou laico e agnóstico prefiro citar o Corpus Iuris Civilis.)

Isto faz com que por vezes me seja difícil compreender por que algumas pessoas enveredam por uma vida de crime. Nunca compreenderei como pode uma pessoa matar outra, como pode assaltar, corromper e ser corrompida, agredir sexualmente ou – partindo agora para o assunto de pertinência para este texto – levar uma vida dedicada à pequena criminalidade, à trafulhice e ao arranjo de vida.

Ontem, à míngua de bons temas fotográficos, entrei num beco junto à Avenida da Boavista onde sabia que existia uma sucata, digamos assim, «não oficial». Já lá tinha estado, mas nessa altura a fotografia que fiz (acima) não ficou muito boa (alguns meses mais tarde viria a fazer uma fotografia muito mais satisfatória de um carro em sucata, mas no outro extremo da cidade, em Campanhã). Quando estava a procurar um bom ângulo para fotografar um Fiat Panda em avançado estado de decomposição, um indivíduo que estava amorosamente a limpar o seu Fiat Brava junto à sucata oficiosa perguntou-me o que estava a fazer; que eu não podia fotografar porque aquilo era propriedade privada, disse o sujeito. Seguiu-se uma pequena altercação, que resultou em quase ter perdido as estribeiras, mas acalmei-me e saí daquele lugar. Demorei algum tempo a perceber tudo: aquela sucata, além de clandestina, era provavelmente composta por carros roubados. Claro que o homenzinho pensou que eu era da polícia, ou qualquer coisa parecida, o que justifica o seu pânico por alguém fotografar naquele lugar.

Hoje, no Bairro Dr. Nuno Pinheiro Torres, aconteceu-me algo muito parecido, mas com um grau de sofisticação maior. Os bairros sociais do Porto estão equipados com uns estendais de zinco que compõem umas linhas direitas deveras interessantes. Deparei com um e propus-me fotografá-lo mas, depois de tê-lo rondado durante alguns minutos, decidi não fotografar porque estava a usar a lente de 50mm e não consegui um enquadramento e uma profundidade de campo que fizessem com que a fotografia resultasse. Quando abandonava o local, uma meia-dose de homem, ainda jovem mas com aspecto de pessoa que aprecia uma boa cena de porrada, veio pedir-me satisfações. Descobri que tinha sido alertado para a minha presença por um toxicodependente que estava nas imediações, numa espécie de posto de vigia improvisado. Ou seja: aquele lugar tinha um sistema de alertas. Tinha ido parar a um local de tráfico, o que significa que aquelas pessoas criaram um sistema de vigilância porque vivem constantemente no medo de serem apanhadas. Este caso exigia uma atitude diferente: expliquei ao traficante meia-leca que estava a fotografar o estendal porque «é giro», que fotografo «para criar» (o que deixou o interlocutor um pouco confuso) e que não, não podia mostrar-lhe as fotografias porque a minha câmara não tinha ecrã. No fim o pequenote lá foi à sua vida, mas não deixei de lhe atirar um «na boa» que ele terá interpretado como um sinal de capitulação, mas me fez rir por dentro.

O que me parece incompreensível, nestes estilos de vida, é que as pessoas que a eles se dedicam não têm paz. Não podem ter paz. Vivendo no medo de serem descobertas, não podem ter um minuto de descontracção, tudo lhes parece suspeito e vivem como animais acossados. Para quê? São pessoas para quem o ter é mais importante que o ser: à míngua de capacidades que lhes permitam ter um modo de vida socialmente aceite, e por pensarem que os estilos de vida que adoptaram lhes trará algum proveito – ou pelo menos um proveito maior do que obteriam se tivessem uma profissão normal, a qual seria sempre mal remunerada e penosa pela sua falta de habilitações –, acabam por viver vidas completamente estúpidas, sem poderem gozá-las por estarem demasiado ocupadas em manter as suas actividades ilícitas fora da vista da sociedade.

Eu não sei como se consegue viver assim. Fazer do crime – ainda que este se possa subsumir ao conceito de pequena criminalidade – um modo de vida implica privar-se de liberdade, ter uma vida social restrita a alguns maltrapilhos da mesma laia e renunciar a muitos dos prazeres da vida. Imagino que pessoas como o meia-dose que me veio pedir satisfações por eu fotografar o estendal não sinta medo da prisão, porque, mesmo sem se dar conta, vive prisioneiro do seu modo de vida. No fundo, tive mais pena dele do que do sucateiro clandestino porque aquele é jovem e, por ter escolhido aquela vida, não goza a sua juventude e nunca será um ser humano completo. Não pode olhar os outros sem desconfiança, vive encurralado no bairro por medo de ser apanhado e, consequentemente, não pode sequer gozar os proventos da sua actividade. (O que o deve levar a pensar se tudo aquilo vale realmente a pena.) E, mais tarde ou mais cedo, será apanhado. Acontece a todos. Quando o for, vai dar-se bem com a vida de recluso porque não vai diferir muito da que leva.

Estes episódios fizeram-me pensar na minha vida e nos valores que observo. Eu não vivo no medo, não tenho nada a esconder, não encaro as outras pessoas com desconfiança e passo por onde me apetecer. Sou livre. Este é o bem mais inestimável que possuo, embora na maior parte do tempo não pense nele.

M. V. M.

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