O caso Pentax

Pentax-K-S1-Black-top-angledOs que me acompanham mais atentamente sabem que, apesar de ter começado a fotografar há muito pouco tempo, convivi desde muito novo com material fotográfico, por via do meu falecido tio Zé, que trabalhou na Fuji – na verdade a sociedade chamava-se Hitzemann & Cia., Lda., mas todos a conheciam por «Fuji» – durante a maior parte da sua vida. Embora não me tivesse feito tomar o gosto pela fotografia, esta proximidade fez com que as marcas da indústria fotográfica me fossem familiares. Mesmo as que não eram distribuídas pela Fuji.

Recordo-me, em particular, de ver e ouvir publicidade a uma marca denominada «Asahi Pentax» quando era miúdo. (O facto de haver publicidade na rádio, jornais e revistas diz muito sobre a importância da indústria fotográfica naqueles dias.) O que eu não sabia era que esta marca, que deixou cair o «Asahi», era uma das mais respeitadas e reputadas nesse tempo. E também estava longe de prever no que se iria tornar hoje.

A Pentax era uma das marcas mais proeminentes nos anos 60 e 70 do século passado. Desde os esforços – infelizmente falhados – de implementar uma baioneta universal com o M42 até à apresentação da primeira câmara com medição pontual, passando pelo enorme sucesso das lentes K e pela qualidade e beleza de máquinas como a K1000, a Pentax foi sempre uma marca de vanguarda que influenciou o design, a construção e a ergonomia das câmaras de 35mm. Quando voltei a interessar-me por fotografia – o que aconteceu já nesta década –, a Pentax vendia menos de 2% das câmaras a nível global. Uma insignificância.

A Pentax é, provavelmente, a maior vítima do incompreensível duopólio que conhecemos, depreciativamente, como «Canikon». (Se posso compreender a razão de a Nikon, com os seus corpos sofisticadíssimos e as suas lentes que só ficam atrás das Leica e de algumas Zeiss, ser tão proeminente, a importância da Canon é para mim um mistério.) A Pentax tentou competir com a Canon e a Nikon, mas nunca teve sucesso.

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É com isto que a Pentax quer ganhar posição no mercado…

Talvez por a sua administração ter passado por diversas companhias (em 2010 pertencia ao grupo Hoya, hoje faz parte da Ricoh), com as inevitáveis falhas no marketing e distribuição que isso acarreta, ou por qualquer outra razão, a Pentax não conseguiu impôr-se no mercado. Tal não se deveu à falta de qualidade das suas câmaras, que foram sempre apreciadas pela crítica: as K-x, K-R, K-30, K-50 e K-5 estiveram sempre, no mínimo, a par das Canon e Nikon concorrentes. A K-5 era considerada melhor que a Nikon D7000 e a Canon 60D.

Enquanto marcas como a Olympus e a Fujifilm descobriram rapidamente que não podiam competir com Canon e Nikon, abandonando o mercado das DSLR e propondo alternativas que tiveram bastante sucesso, a Pentax insistiu nas reflex. O seu insucesso levou a um caminho grotesco, lançando câmaras douradas, CSC ridículas, DSLRs com luzes LED no punho e lentes que abastardam o nome Pentax para procurar atrair um público cada vez mais centrado nas ofertas do duo Canikon. Sempre, como era escusado dizer, sem sucesso.

Apesar de tudo, a Pentax tem uma linha de produtos interessante. É o único fabricante generalista japonês que propõe uma câmara digital de médio formato – a portentosa 645Z – e as suas DSLR têm excelente reputação. A razão por que as pessoas preferem uma Canon 60D a uma Pentax K-5 escapa-me por completo, mas é esta a realidade. Para tentar contrariar este statu quo, a Pentax não consegue imaginar nada melhor do que câmaras risíveis como as série Q e a ignominiosa K-01.

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Quando os fabricantes perdem a noção do ridículo: comandos da Pentax X-S1

Hoje a imagem da Pentax está de tal maneira degradada que mais valia que a Ricoh a eliminasse e produzisse as DSLR e médio formato sob a marca Ricoh – o que não traria mal ao mundo, pois esta marca também tem um bom capital de prestígio. A política da Pentax arruinou por completo a boa reputação da marca, que é hoje conhecida pelas suas câmaras cor-de-rosa e douradas que nem assim vendem bem. A Pentax anda há dez anos a iludir a comunidade fotográfica com promessas nunca concretizadas de lançar uma câmara full frame, mas mesmo que o façam não me parece que vá ombrear com as Nikon D810 e Canon 5D. Acabar com a marca Pentax seria como um tiro de misericórdia – ou, mais pacificamente, uma eutanásia. Suponho que não sou só eu a preferir que não haja mais câmaras Pentax a ver a imagem desta marca ser destruída com o lançamento de câmaras ridículas.

M. V. M.

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1 thought on “O caso Pentax”

  1. Caro M.V.M.:

    A Pentax (agora transformada numa marca comercial da Ricoh) parece andar “às apalpadelas” para (re)encontrar o seu lugar no mercado. O duopólio Canon-Nikon conseguiu impor-se no mercado global não só por via do esforço comercial realizado, mas também pela letargia em que os outros fabricantes parecem ter estado durante muito tempo.
    Entretanto fabricantes como a Olympus e a Fujifilm encontraram o seu caminho. Tenho dado especial atenção a este último que ao apostar nas CSC de grande qualidade e com sensor de “tamanho razoável” conseguiu conquistar muitos consumidores. Resta esperar pela evolução do sensor X-Trans que parece ter “estagnado” nos 16 Mp (mais do que suficientes, diria eu que sou apenas um leigo) quando o mercado continua receptivo a números superiores.
    Quanto à Pentax (Ricoh) – que muito prezo, como sabe – continua a fabricar reflex de bom nível. Diz quem sabe que a K-3 é excelente, mas falta um esforço publicitário que leve os potenciais clientes a saberem que existe. Se for aos locais habituais onde se vende material deste tipo é muito difícil encontrar produtos Pentax. E isto sucede não só em Portugal, mas também em muitos outros países que, graças ao trabalho que realizo, tenho o previlégio de visitar.
    Espero que a Ricoh com o seu poder económico tenha vontade de colocar a Pentax no lugar que merece, quanto mais não seja pela rica história que possui.
    Parece que a ansiada reflex de sensor integral (o santo Graal de muitos fans da marca) vai chegar em 2015. A ver vamos…

    Cumprimentos

    PR

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