O que eu aprendi ao ler o manual de uma câmara que não tenho (e provavelmente nunca vou ter)

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A pergunta que formulei no final do texto de segunda-feira não tem resposta. O cavalo negro troteando sobre a neve pode ficar completamente negro na imagem, mas a neve vai ficar cinzenta; e a neve pode ser apresentada na sua brancura de branco a 90%, mas o cavalo ficará cinzento. Nada a fazer, a menos que usemos as máscaras do Photoshop ou uma chapa que possamos trabalhar na revelação.

Segundo as palavras sábias do manual da Leica M7 – e eu acredito que aquelas pessoas lá em Wetzlar devem perceber mais sobre o assunto do que eu –, «A maioria das cenas contém uma distribuição uniforme de altas luzes e sombras nos motivos e reflecte uma média de 18% da luz que incide sobre estes últimos. O valor de 18% corresponde a um tom de cinza médio para o qual os fotómetros são calibrados. Motivos muito claros, como cenas contendo neve de inverno, praias de areia clara, paredes caiadas de branco ou um vestido de noiva branco, reflectem mais luz para o fotómetro, o que tende a resultar em subexposição. Motivos predominantemente escuros, como uma locomotiva a vapor preta, telhados de ardósia cinza escuro e uniformes azul-marinho reflectem muito menos luz, e os fotómetros tendem a sobreexpor.

«É o que se verifica no geral, a menos que a compensação de exposição correspondente tenha sido previamente fixada ou a exposição tiver sido medida selectivamente usando uma parte do motivo que contenha uma distribuição significativa de luz e pormenores escuros. Pode, por exemplo, medir-se a exposição no rosto da noiva e não no seu vestido branco. Uma paisagem fotografada com uma lente grande-angular deve ser medida com a LEICA M7 apontando para baixo, para excluir o céu brilhante. Se não houver uma porção adequada do motivo para a medição ao configurar a exposição manualmente, um factor de compensação deve ser utilizado, ou seja, o tempo de exposição será prolongado por 2 a 4x ou a abertura pode ser aumentada em um ou dois f-stops. Neve branca sob um céu claro com luz solar intensa requer frequentemente um aumento da exposição de 4x, ou seja, em vez da velocidade do obturador especificada de 1/1000 e f/8, usa-se 1/250s e f/8 ou 1/1000 e f/4. Para fotografar objectos menos brilhantes, como uma praia, um factor de compensação de 2 é suficiente. O caso inverso é o de motivos escuros. Se houver um contraste considerável entre as partes claras e escuras da imagem, a latitude de exposição dos negativos deixa de ser suficiente para registar o intervalo de tons inteiro sobre o motivo, tanto na “luz” como na “sombra”.

«O fotógrafo deve decidir onde pretende reter mais pormenor. Por exemplo, uma pessoa pode aparecer como uma silhueta preta (subexposta) em frente de uma paisagem correctamente exposta, ou corretamente exposta na frente a um fundo “queimado” (exposição excessiva). A leitura de “luz” e “sombra” e a exposição média resultante geralmente leva a resultados insatisfatórios por as diferenças subtis no brilho serem perdidas, tanto nas altas luzes como nas áreas escuras. A exposição excessiva intencional ou a subexposição realçam frequentemente o carácter de uma imagem e podem ser usados como um auxiliar da composição».

Quer isto dizer que, quando se usam rolos negativos de preto-e-branco e se pretende fotografar cenas de alto contraste, têm de se fazer escolhas. E estas têm consequências. Tenho de aprender a viver com elas. A alternativa é comprar uma câmara de grande formato e revelar as minhas chapas, usando o sistema de zonas de Adams e Archer. O que está fora de questão.

A aprendizagem da fotografia é muito longa e muito dura. Especialmente quando se começa em circunstâncias tão estranhas como as minhas. É que eu sou o equivalente do Benjamin Button no que toca à fotografia: comecei velho e aprendi por uma ordem invertida, passando do digital para o analógico – numa palavra: comecei pelo fim. Falta-me a solidez da aprendizagem que só a fotografia analógica pode dar. Apesar do workshop do Instituto Português de Fotografia – que, vejo-o agora, foi bem mais útil do que me parecia quando o frequentei –, tenho um conhecimento lacunar da fotografia. Pior: criei vícios por ter começado com o digital e, ainda por cima, com máquinas sofríveis.

Penso que, de todas as coisas que aprendi, posso formular uma conclusão simples quanto à exposição ideal: expõe-se para onde se quer reter mais pormenor. O que me parece um postulado válido e universal, conquanto se tenha em mente que esta opção vai afectar negativamente os tons do lado oposto do espectro. O meu grande problema continua a ser a aversão que tenho às altas luzes estouradas, que necessariamente se produzirão quando expuser para as sombras em cenas com grandes contrastes, mas penso estar muito perto de encontrar uma solução para este problema, na forma de um filtro amarelo. Mas isto fica para mais tarde.

M. V. M.

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