Mais coisas que eu aprendi

zonescale

Se os leitores que se deram ao trabalho de consultar os meus dois textos anteriores tiverem ficado com a impressão de que fotografar com negativos para preto-e-branco é incrivelmente difícil, têm razão. São necessários conhecimentos prévios de técnicas ancestrais que assumem foros de esoterismo. Se ficaram com a impressão de que é necessário executar um rito iniciático e ingressar numa seita secreta para expor rolos de preto-e-branco com uma qualidade aceitável, talvez tenham razão. (Pensando bem, talvez seja este o motivo por que incorri em tantos erros.)

Contudo, as coisas podem tornar-se ainda mais complicadas. Ansel Adams e Fred Archer inventaram o chamado sistema de zonas (zone system) entre 1939 e 1940, com o propósito de expor e revelar, não apenas para as sombras ou altas luzes, mas para tons específicos. Para tanto, Adams graduou o espectro tonal em onze zonas (v. imagem), do preto absoluto (0%) ao branco absoluto (100%). Este sistema foi criado a pensar nas folhas de película empregues nas câmaras de grande formato que Ansel Adams usava, mas não deixa de ter cabimento quando o meio é o negativo de 35mm. Como sabemos, o tirano malvado fotómetro de cada câmara está calibrado no pressuposto que cada objecto reflecte 18% da luz incidente, o que implica, simplificando um pouco por motivos de clareza do texto, que os negros e os brancos surjam como tons de cinza. Para obter a tonalidade desejada, faz todo o sentido subexpor os motivos mais escuros e sobreexpor os mais claros, assim contrariando os desígnios do déspota maldito a medição do fotómetro de maneira a obter tons correctos. Cada zona corresponde ao dobro da anterior, pelo que a diferença entre a zona IV e a zona V é de um (1) EV. Deste modo, torna-se simples calcular os valores da exposição de maneira a obter a tonalidade pretendida. (Para uma informação mais precisa e completa sobre o sistema de zonas, v. este artigo e as ligações aí indicadas.)

Este sistema tem formas de aplicação prática nos cartões cinzentos usados por muitos fotógrafos para obter uma medição correcta, mas sobretudo na compensação da exposição, que foi introduzida nas máquinas fotográficas juntamente com a implementação dos modos de exposição semiautomáticos. Contudo, importa ter em conta que o uso do sistema de zonas implica medir a luz reflectida por um determinado motivo em vários pontos. O que torna as coisas mais complicadas do que precisam de ser.

Que posso eu dizer sobre isto? Não vou, de forma alguma, ser depreciativo quanto aos méritos deste sistema, mas penso que é inaplicável aos rolos de negativos. O sistema de zonas destina-se a obter a exposição correcta em várias áreas da cena fotográfica e a calcular o tempo de revelação ideal para essa exposição, mas se o género de trabalho que o uso do sistema implica é efectivo quando se está a expor e revelar uma folha de película (uma chapa) 4×5, e se é possível aplicar o sistema de zonas para ajustar a exposição em cada um dos doze, vinte e quatro ou trinta e seis fotogramas de um rolo, na revelação de negativos de 35mm e médio formato é impossível usá-lo. É que na revelação destes rolos é impossível individualizar cada fotograma, já que o rolo é revelado por todo. Esta é uma dificuldade de ordem prática que, quanto a mim, preclude o uso do sistema de zonas, que foi pensado para a exposição e para a revelação com vista a conseguir impressões correctas do ponto de vista tonal. Assim, não me parece valer a pena usá-lo na exposição se depois é impossível empregá-lo na revelação. Diferentes problemas requerem soluções diversas.

Deste modo, parece-me que se deve seguir um compromisso mais simples quando se usam rolos, que só pode ser a regra de expor para as sombras e revelar para as altas luzes. O que pode ser feito quando se usam rolos de negativos para preto-e-branco é, na presença de objectos próximos do negro ou do branco absoluto, ajustar a exposição em, respectivamente, -1EV ou +1EV, para aproximar a imagem do seu tom real.

Fica, porém, por saber como se deve proceder se quisermos fotografar um cavalo negro troteando sobre um manto de neve…

M. V. M.

Anúncios

1 thought on “Mais coisas que eu aprendi”

  1. «No music, no hats, no scarf around the neck. Just slow down and get into the zone of awareness or observation or non-linear thinking. Frankly, it gets harder and harder these days. Especially if I don’t happen to forget my phone at home».

    — Melanie Einzig

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s