As coisas que eu aprendi

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Da leitura de alguns textos credíveis na internet, conjugada com algumas palavras sábias que ouvi, retirei um ensinamento importante quando se fotografa com rolos para preto-e-branco; mas, para já, permitam-me uma pequena divagação:

Sempre entendi que, por muito bom que venha a ser na fotografia a que chamo convencional (outros chamam-lhe analógica), me faltará sempre o conhecimento de metade do processo fotográfico – a revelação. Esta, tal como a ampliação, tem um papel absolutamente decisivo na aparência visual das fotografias. O que inclui, evidentemente, a exposição. Faltando-me este conhecimento, incorri com demasiada frequência em erros crassos de avaliação da exposição ideal. Esta depende, em partes iguais, da abertura e do tempo de exposição – sendo a velocidade ASA um pressuposto, e não uma das variáveis – e da revelação. O tempo em que o negativo permanece mergulhado no tanque tem uma influência decisiva na luminosidade da imagem: quanto menor esse tempo for, maior será a probabilidade de a fotografia ficar subexposta; e vice-versa.

Deste modo, o tempo e a prática consagraram uma regra relativa à exposição de rolos a preto-e-branco que se aplica na maior parte das situações fotográficas: expor para as sombras, revelar para as altas luzes. Ajusta-se a abertura e o tempo de exposição apontando a câmara para as partes menos iluminadas da imagem, de modo a preservar os pormenores que, de outra forma, ficariam ocultos sob as sombras. Este procedimento, se fosse tomado com uma câmara digital, teria a consequência de as altas luzes estourarem ao ponto de a informação contida nas porções mais luminosas da imagem se perder, mas não é isto que acontece nos negativos de preto-e-branco: nesta fase está apenas cumprido um terço do processo que levará à fixação definitiva da imagem fotográfica.

Com efeito, a revelação tem um papel fundamental na exposição. A revelação dos negativos a preto-e-branco, quando feita correctamente (i. e. para as altas luzes) vai restituir o contraste que de outra forma teria sido perdido nas sombras e recuperar a informação das altas luzes. Seguir a regra de expor para as sombras significará menos tempo no tanque de revelação, o que é de enorme importância para a fase seguinte – a ampliação ou a digitalização.

Com a revelação fica cumprido o segundo terço do processo da fotografia convencional. O que acontecer nesta fase terá uma importância decisiva na seguinte, da mesma maneira que a escolha da exposição na câmara influenciou a revelação. No último terço vai converter-se uma imagem no seu oposto tonal: o que parece branco no negativo vai ficar negro e vice-versa. O ampliador (ou o scanner) terá a vida mais facilitada se o fotógrafo tiver feito as escolhas correctas quando ajustou a exposição na câmara, porque o surgimento de demasiada informação no negativo vai obrigar a mais trabalho do ampliador ou do scanner, com o resultado de a imagem surgir sobreexposta e com demasiado grão. Por outro lado, não há que temer que as altas luzes fiquem estouradas se se expuser para as sombras: a revelação ter-se-á encarregado de restituir a informação e, de resto, as características de gama dinâmica dos negativos é bem diferente da dos sensores digitais – pelo que, a menos que haja contrastes extremos na cena fotografada, dificilmente as altas luzes estourarão.

Demorei demasiado tempo a aprender isto, em consequência de estar habituado a uma câmara (digital) que estoura as altas luzes com a maior alacridade. Por causa desta experiência, que me fez desenvolver uma aversão tremenda pelas altas luzes estouradas, criei a disciplina de expor para as altas luzes e recuperar as sombras na edição de imagem, mas os negativos para preto-e-branco são um mundo completamente diferente e o procedimento é exactamente o inverso. Por não ter compreendido isto, dificultei a vida a quem revelou os meus negativos e a mim mesmo, porque muitas vezes não obtive os resultados que pretendia quando fotografei com negativos para preto-e-branco.

Por fim, é importante deixar bem claro que esta regra de expor para as sombras se aplica apenas aos negativos para preto-e-branco. Nos slides, na fotografia digital em geral e nos negativos a cores (quando, neste último caso, se pretendem cores saturadas) o procedimento é o inverso: expõe-se para as altas luzes de maneira a evitas que estas estourem. No caso da fotografia digital, isto chama-se expor para a direita, por causa da posição das altas luzes no lado direito do histograma. Também não se aplica a regra de expor para as sombras quando se fotografa com negativos para preto-e-branco em contraluz, pois neste caso pretende-se exactamente o oposto de uma exposição normal – embora haja um preço a pagar na quantidade de grão que vai surgir na imagem final.

M. V. M.

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