As minhas limitações

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A melhor coisa que cada um de nós pode fazer para melhorar é conhecer as suas limitações. Nem sempre é fácil, porque há sempre uma camada de entusiasmo a limitar a nossa percepção, mas com o tempo – e um pouco de espírito autocrítico, o que é difícil para aqueles que têm uns egos mais inflados – consegue-se. É claro que, quando nos vemos ao espelho, somos sempre bonitos: não reparamos nas clareiras que alastram no alto da cabeça, nas rugas cada vez mais vincadas ou na barbela que pode fazer com que sejamos confundidos com um pelicano. Isto de vermos sempre o nosso lado melhor faz parte da natureza humana. É uma defesa, pois de outra maneira seríamos todos pessoas amargas e angustiadas. Mas ter consciência das limitações não é mau nem autodepreciativo: pelo contrário, é uma forma de nos conhecermos melhor e de sermos capazes de nos superar a nós mesmos.

Na fotografia é muito importante ter consciência das limitações. Pelo menos para quem desenvolveu um interesse que seja mais que superficial. Saber quais os erros em que se incorre é fundamental para aperfeiçoar a maneira como se fotografa. Sem este conhecimento é impossível melhorar: ou não sabemos que aspectos precisam de ser corrigidos, ou – o que é pior – imaginamos que já sabemos o que há para saber. Esta última atitude torna-se num obstáculo intransponível ao desenvolvimento das aptidões fotográficas. Não há ninguém que saiba tudo. Se alguém disser que sabe tudo, ignorem-no: é um louco. Ou um pobre pateta convencido, o que vai dar ao mesmo. Ignorem-no na mesma.

Eu tenho algumas limitações que preciso de corrigir. A primeira delas é a exposição. A maior parte das fotografias a preto-e-branco que faço têm deficiências de exposição. Preciso de aprender a expôr, porque está a começar a tornar-se irritante ter tantas fotografias sobreexpostas e ter de fazer batota com a edição de imagem para as tornar apresentáveis. O problema da exposição pode ser posto da seguinte maneira: perante a maioria das situações fotográficas, é necessário fazer opções. As máquinas fotográficas (eu prometo que vou fazer um esforço para não fazer alegorias patetas sobre o tirano malvado chamado fotómetro) como a minha OM-2 medem a luz numa área correspondente ao centro da imagem: é a chamada medição ponderada ao centro. Simplesmente, a maioria das situações fotográficas apresenta grandes contrastes de luminosidade, com áreas bem iluminadas (altas luzes) e mal iluminadas (sombras). Não vou negar: é extremamente difícil obter uma luz satisfatória. Querer ter todo o pormenor ofuscado pelas altas luzes e escondido sob as sombras é querer ter sol na eira e chuva no nabal.

Torna-se deste modo necessário fazer uma escolha. Ou medimos a exposição nas sombras ou nas altas luzes. No primeiro caso, as altas luzes vão com toda a probabilidade estourar; no segundo, os objectos que não estejam directamente iluminados vão surgir como silhuetas. O que me leva a outra das minhas limitações: tenho uma enorme dificuldade em conseguir fotografias com uma iluminação favorável. Já aprendi a não fotografar objectos à sombra, mas ainda me falta aprender muita coisa. Por regra, sou demasiado descuidado com a iluminação, ou melhor: com a captação da melhor luz que incide sobre os motivos. Falho quase sempre nisto.

Outro problema tem que ver com não compreender a natureza da película a preto-e-branco. O facto de sobreexpor frequentemente – o que me acontece por confiar nas indicações do fotómetro – leva a que as minhas fotografias tenham, no geral, demasiado grão. Mesmo com velocidades 100 e 125. O que acontece, num negativo a preto-e-branco, é que as partes luminosas da imagem surgem a preto, e vice-versa. O ampliador, ou o scanner, precisam de uma energia desmesurada para converter o fotograma para positivo quando há demasiados pretos no negativo, o que causa a exacerbação do grão. O ideal é expor para as sombras, mas não há maneira de me convencer a fazê-lo por receio de que as altas luzes estourem. Deste modo, as únicas fotografias que me deixam verdadeiramente satisfeito são as contraluzes, em que exponho para as altas luzes com o propósito de criar silhuetas. É bonito, mas é uma limitação.

Tudo isto significa que tenho muito estudo pela frente. Quem me conhece sabe que não sou dado à autocomplacência e sou exigente. Creio que este é o único caminho possível para progredir. É também o mais difícil, mas eu não sou de fazer as coisas de ânimo leve. Se me meti na fotografia, tenho de fotografar bem – mesmo que isto implique uma aprendizagem longa e penosa.

M. V. M.

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