O preço dos rolos

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No Sábado passei por uma loja, a AFF, onde já não ia há muito. Foi lá que comprei o meu tripé – a pechincha do século – e, sobretudo, a minha OM-2. Tenho uma estima enorme por aquelas pessoas, embora não confie no laboratório (externo) onde revelam e imprimem negativos. Precisava de um rolo e optei por um Ilford FP4. Fiquei tão surpreendido com o preço que pensei que tinha entendido mal: ali o FP4 custa €5,40.

Isto quer dizer que, na mesma cidade, é possível comprar o mesmo rolo por preços que vão de €5,40 a €7,99. Não sei como isto é possível. O que sei é que o preço mais caro dos que mencionei coloca o Ilford a par com os rolos de qualidade profissional da Fujifilm, que são vendidos por preços quase escandalosos. Sei também que é fácil à AFF, que adquire produtos em quantidades industriais, vender os artigos por preços mais baixos – já não é tão fácil a uma casa como a Câmaras & Companhia fazer o mesmo –, mas isto só torna o preço de €7,99 mais incompreensível. É que este último preço é pedido numa grande superfície comercial da cidade do Porto!

Parece, pois, que o mundo da fotografia convencional é um onde não se aplicam as leis da oferta e da procura, ou que as leis da oferta e da procura são distorcidas, mas não é bem assim. Contudo, estas diferenças podem ser decisivas nas escolhas: no meu caso, se a única loja onde se vendem rolos Ilford FP4 fosse a que os vende a €7,99, eu nunca teria eleito este rolo como o meu favorito para preto-e-branco. Eu não me importo de gastar dinheiro com rolos porque fotografo pouco (prefiro concentrar-me em fotografar bem), mas não sou tão rico que compre rolos vendidos por preços insensatos. A fotografia convencional não sai barata, o que leva muita gente a comprar os rolos mais baratos, como o Fomapan e o Agfa APX 100; estas pessoas poderiam, eventualmente, comprar rolos mais adequados às suas intenções se não houvesse esta discrepância de preços.

É também bastante claro que a AFF vende o FP4 por este preço porque pode, e que a superfície comercial que o vende a €7,99 está a locupletar-se à custa dos clientes (como faz, aliás, com quase todos os produtos que vende). Tudo isto acontece porque o mercado da fotografia convencional é de dimensão extremamente reduzida. Se tivesse maior volume haveria mais concorrência e os preços dentro da mesma linha de produtos seria mais nivelado, sem discrepâncias de €3,59 (o que é inimaginável em produtos mais correntes). Simplesmente, o mercado da película não vai crescer o suficiente para justificar a existência de uma concorrência de preços. Não conheço a opinião dos analistas de mercado, nem me parece que estes gastem muito do seu tempo a analisar o mercado dos negativos de 35mm, mas creio que nenhum vaticinaria uma expansão espectacular e a conquista de uma dimensão significativa para este mercado. A película não acabou, mas nunca voltará aos volumes de vendas da era pré-digital.

Mais: estou convencido de que marcas como a Foma e a Ferrania só persistem no fabrico de película porque têm maquinaria perfeitamente ajustada à procura, o que não acontece com a Kodak e a Fujifilm – e, provavelmente, com a Ilford –, que, por causa da dimensão que atingiram na era de ouro da película, têm equipamentos caros de operar e relativamente ineficientes (no sentido de que são desproporcionados, pela sua enorme capacidade, em relação às necessidades do mercado), dos quais não retiram a mesma rentabilidade que as marcas referidas em primeiro lugar. O que explica os preços elevados que os seus produtos atingem: em termos de custo de utilização dos equipamentos industriais, não é o mesmo fabricar pequenas ou grandes quantidades. Uma fábrica com grande maquinaria tem prejuízo se fabricar volumes diminutos, o que é necessariamente compensado aumentando o preço dos produtos.

Atentas estas condições, o mercado da película será sempre marginal, mesmo que continue a crescer no futuro próximo. É melhor que nos conformemos com a ideia de que os rolos são produtos de nicho – e este é um nicho que pode não durar muito mais: se a procura baixar, a eficiência da maquinaria vai diminuir e os fabricantes poderão concluir que é demasiado oneroso manter as fábricas em laboração.

Sendo assim, os preços nunca vão ser similares em todas as lojas. Haverá sempre aquelas que podem comprar por atacado e as que compram na proporção da sua procura. É evidente que não é o mesmo, para um comerciante, comprar 10 ou 10 000: neste último caso pagará menos, poupará em despesas de transporte e poderá, em consequência, revender por preços inferiores. Como vêem, há uma justificação microeconómica para aquela disparidade de preços – mesmo que o mais elevado destes me continue a parecer difícil de justificar.

M. V. M.

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