Barcos rabelos, a Alvão e o progresso tecnológico

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Hoje estive a ler um artigo sobre o Douro vinhateiro, a propósito de barcos rabelos, que foi publicado no suplemento Fugas que acompanhou a edição do Público de Sábado. O tema não é grandemente do meu interesse – quem viu um barco rabelo viu todos e, de resto, são cliché até mais não poder –, mas esse texto era ilustrado por fotografias da casa Alvão, daqui do Porto.

A Alvão foi inaugurada por Domingos Alvão no dia 2 de Janeiro de 1901 e tem o seu estabelecimento na Rua de Santa Catarina, n.º 120. Felizmente, a Foto Alvão ainda existe e, mesmo se não foi a primeira loja e atelier de fotografia do Porto, o prestígio do seu criador Domingos Alvão tornou-a numa das casas mais reputadas do Porto.

Com efeito, nenhum escrito sobre a história da fotografia em Portugal estará completo se não tiver um capítulo sobre Domingos Alvão e o seu estabelecimento. Enquanto fotógrafo, não houve na sua época nenhum que se lhe comparasse. Decerto, a sua fotografia era comercial, deste modo conservadora – mas muitas das suas fotografias conseguem surpreender pela sua modernidade. E pela qualidade.

No caso das fotografias que ilustram o tal artigo da Fugas, é muito simples descrevê-las: são de cortar a respiração. Olho para aquelas fotografias, que poderão ter quase um século de existência, e, mesmo que a tonalidade sépia não seja do meu inteiro agrado, não vejo nelas nada que me mereça reparo. Os contrastes, a resolução e a nitidez – numa palavra: tudo – são simplesmente perfeitas, de uma qualidade tal que, ao mudar de página e deparar com as fotografias (digitais) contemporâneas, senti um anticlímax. Mesmo se o Público emprega os melhores fotojornalistas nacionais e a qualidade do seu trabalho é indiscutível, as fotografias actuais parecem-me inautênticas. Há nelas demasiado de tudo: demasiada nitidez, demasiado contraste, demasiada resolução. O que as torna mais reais que a realidade.

É evidente que as fotografias da Alvão foram feitas empregando grandes meios: não tenho dúvidas que a fotografia que ilustra este texto resultou do emprego de uma câmara de grande formato, mas o que é certo é que não vejo nada, nestas fotografias, que possa dizer que é pior do que aquilo que teria sido obtido se já houvesse fotografia digital naquele tempo.

O que levanta, invariavelmente, uma questão – se a fotografia tinha aquela qualidade, por que (e para quê) se mudou para o digital? Seja qual for a resposta a esta pergunta, seria asinino dizer que foi por causa da maior qualidade.

O digital tornou a fotografia acessível a todos, mas fê-lo em detrimento da qualidade. Quando as primeiras câmaras digitais surgiram, havia algumas que não chegavam a 1 MP. Por qualquer motivo que de todo me escapa, todos viram um grande futuro nas imagens posterizadas, cheias de ruído e com serrilhado visível em tamanhos diminutos que aquelas câmaras produziam. Seria obviamente injusto – e falso – negar que houve progressos espectaculares na fotografia digital, mas o que é certo é que ainda existem problemas de gama dinâmica e de qualidade das cores por resolver.

Note-se que a fotografia digital impôs-se como o meio dominante antes do Photoshop e das correcções que a edição de imagem dos nossos dias permite, o que causa ainda mais perplexidade. Pode, com efeito, argumentar-se que um programa sofisticado de edição de imagem resolve os problemas das imagens digitais, mas isto só se tornou verdadeiro depois de a fotografia digital se ter estabelecido. Os argumentos a favor do digital são outros: são de ordem prática. São o ter livrado quem fotografa da maçada dos rolos e a possibilidade de transferir imagens para o computador. (Note-se, porém, que as melhores fotografias digitais ocupam tanto espaço em disco que obrigam a uma parafernália de discos externos para não sobrecarregar a memória do computador.)

Se a fotografia digital não consegue igualar a qualidade de uma chapa 4×5 sem o risco de queimar a placa gráfica, não terá sido decerto pela maior qualidade da imagem que o formato digital prevaleceu. Nem foi por causa das compactas, porque já existiam câmaras minúsculas nos dias da película (e. g. as Pentax 110). Foi por motivos exclusivamente mercantis, para trazer a fotografia para o povo e vender mais câmaras. Como em todos os falsos progressos, o volume de vendas prevaleceu sobre a qualidade. Esta, por seu turno, tornou-se apanágio dos muito ricos. E ainda há quem fique surpreendido por haver tanta gente a voltar à fotografia convencional…

M. V. M.

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