À volta de uma entrevista com Kertész

Kertesz_The_Fork

André Kertész, que precede historicamente fotógrafos como Henri Certier-Bresson e Robert Frank, foi um caso singular na fotografia. Depois de um período de aprendizagem na sua Hungria natal, mostrou-se como um dos grandes fotógrafos da sua época em Paris. As fotografias de Kertész – em particular as do período parisiense – são fotografias que transmitem estados de espírito, mas estes sentimentos são em grande parte induzidos por aquilo que alguns podem interpretar como imperfeição técnica – fotografias pouco nítidas e de motivos tão simples que podem ser vistos como deficiências na composição.

Apesar de tudo, Kertész foi convidado para trabalhar nos Estados Unidos. O seu trabalho, porém, foi mal recebido pelos americanos, o que causou uma tremenda amargura em Kertész que simplesmente se sentiu incompreendido. Num documentário da BBC de 1983, que descobri graças ao blogue de João Martins Pereira, Kertész refere-se à obsessão dos americanos pela perfeição técnica, designando-a como a causa do seu (relativo) insucesso. Cito-o, apesar de o seu terrível sotaque húngaro obstar à audibilidade das suas palavras: «Os americanos precisam de fotografias tecnicamente super-perfeitas (…) mas que não exprimem nada (…) Fotografias com bons motivos assassinadas por milhões de pormenores desnecessários.»

Com efeito, as fotografias de André Kertész podem ser caracterizadas pela simplicidade gráfica. Kertész vai directamente ao que pretende exprimir, sem o rodear de adornos inúteis e de técnicas supérfluas. A sua abordagem é quase minimalista e concentra-se no motivo, despojando-o de distracções inúteis. Tudo quanto lhe importa é a forma como vê os motivos: «O que é preciso, diz Kertész completando o seu raciocínio acerca da maneira como os americanos encaravam a fotografia, é a projecção da visão, não a técnica».

As palavras de Kertész são, evidentemente, certeiras – ao ponto de parecerem truísmos. Contudo, o que é certo é que as fotografias de Kertész não atingem um equilíbrio entre técnica e conteúdo como as de Cartier-Bresson ou Robert Doisneau. Muitas das fotografias do mestre hungaro-americano padecem de soft focus e parecem descrever uma eterna nostalgia, uma tristeza e solidão a que nem todos são sensíveis. (Eu sou; a fotografia Place Gambetta (1927) é das mais belas e emotivas que conheço, mas Kertész produziu muitas mais.) Eu compreendo esta maneira de fotografar: Adriana Lestido usa a desfocagem com intuitos expressivos e, mais perto de mim, o meu mentor Fernando Aroso considera que o importante é colher a fotografia – mesmo que esta tenha problemas técnicos como a focagem.

Em que fico? Eu não posso, de maneira nenhuma, medir-me com nenhuma das pessoas que referi até aqui. Nem quero. Seria ridículo. Contudo, tendo começado a fotografar numa era em que a fotografia é digital e vista no computador, em que a nitidez e a resolução extremas são procuradas afincadamente por quem fotografa, não pude escapar a esta influência que, aparentemente, é ditada pelos critérios que Kertész identificou. Eu procuro a maior nitidez possível – excepto, evidentemente, quando uso a focagem selectiva para isolar um motivo –, o que condiciona, por exemplo, as escolhas de rolos. Acresce que as minhas tentativas de conferir expressividade às fotografias pelo uso do desfoque nunca resultaram. Vejo-as sempre como fotografias mal executadas e, deste modo, falhadas. Isto é algo que não consigo combater: tal como com os leigos, os meus olhos rejeitam a desfocagem. Nada a fazer: sou um aculturado.

Há outra questão. As fotografias que Kertész contrapõe às suas – as tais super-perfeitas – sofrem de excesso de informação. Nesta concepção de fotografia há demasiado para os olhos se perderem e a atenção se desviar do essencial. Eu não gosto de fotografias em que não se percebe qual a intenção de quem as fez, e ainda menos das daqueles que tudo o que querem é mostrar que dominam a técnica e têm câmaras capazes de capturar todos os pormenores com a maior resolução possível. Demasiada informação visual é nociva. Prefiro linhas fortes e simples a uma profusão de pormenores sem outro sentido que não seja mostrar esses pormenores.

Deste modo, os vícios da fotografia contemporânea – muita técnica, muita nitidez, nenhum significado – já estavam a germinar no tempo em que Kertész se estabeleceu nos Estados Unidos. Setenta anos que teriam sido perdidos se não fossem fotógrafos como Kertész e outros da mesma estirpe.

M. V. M.

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2 thoughts on “À volta de uma entrevista com Kertész”

  1. Excelente artigo. Interpreta muito bem o “olhar” moderno de um Mestre sobre a fotografia, essa Arte maior.
    Fico satisfeito por ter mostrado o documentário (e obrigado pela referência)
    Um abraço
    Joao Martins Pereira

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