Cartier-Bresson, as Leica, o Tri-X, as impressões e a acessoriedade da técnica

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A exposição de Henri Cartier-Bresson a que aludi no texto de ontem teve outros efeitos em mim. Apesar de a minha preocupação ter sido ver as fotografias pelo que elas são – imagens com um ou mais significados –, não pude proibir-me de me indagar sobre algumas questões que, sendo de natureza eminentemente técnica, têm uma contribuição decisiva para a força destas fotografias.

Desde logo, o papel. Sim, o facto de serem ampliações tem relevo na forma como se aprecia uma fotografia. Vou mais longe e afirmo que quem se limita a ver fotografias no computador nunca as vê verdadeiramente. Não aceitar isto é recusar o estatuto de arte à fotografia e reduzi-la a mera informação. Tal como a pintura e a tela, a fotografia depende em muito da textura do papel para poder ser apreciada devidamente, mas não é apenas por uma questão de textura que a impressão é importante: no papel há uma ilusão de tridimensionalidade que o monitor não pode reproduzir e há aquilo a que alguns chamam a «curva do papel»: as dinâmicas das tonalidades são muito diferentes no ecrã e no papel. No primeiro os contrastes não são tão perceptíveis, por mais megapixéis que sejam impregnados na imagem. Os tons, tal como surgem no papel, ajudam à percepção das linhas que definem os objectos e potenciam a visibilidade do contraste.

Em resumo: ninguém pode dizer que conhece uma fotografia antes de a ter visto no papel – e, de preferência, numa dimensão decente. Tenho notado que existe, ainda que ténue – mas a ganhar força –, um movimento, uma undercurrent que advoga a necessidade da impressão e o seu lugar como destino último de uma fotografia; não é por acaso. O computador é um mero arremedo da realidade, uma ilusão construída em linguagem binária.

Também não pude deixar de reparar nas semelhanças entre o grão que vi em algumas fotografias de HC-B e o que aparece num número considerável de fotografias que fiz com o tão glorificado Kodak Tri-X. Isto só pode querer dizer uma coisa: HC-B era um utilizador do Tri-X. Contudo, as fotografias de HC-B têm um recorte e uma nitidez que nunca consegui obter nas fotografias em que usei esta película. A razão para esta diferença só pode estar na diferença entre o equipamento empregue por HC-B e por M. V. M. – a diferença entre uma humilde Olympus e uma Leica.

Esta é uma diferença considerável. Muitas pessoas pensam que as Leica são apenas um símbolo de status que é usado com fins ostensivos, mas mesmo que isso possa ser verdade em relação a alguns adquirentes de Leicas, generalizar dessa maneira é um disparate. As lentes Leica são as melhores que existem e são melhores em todos os aspectos: a sua nitidez é inimitável, mas não é obtida à custa das transições ásperas que vemos nas lentes digitais que procuram a maior nitidez e resolução; as suas características de contraste são também impossíveis de imitar. Uma fotografia feita com uma lente Leica é instantaneamente reconhecível.

É esta nitidez das lentes Leica que permite tão bons resultados com um rolo como o Tri-X, que não tem grande contraste nem acutância. Para obter níveis de nitidez próximos daqueles com equipamento menor, preciso de rolos com mais contraste e acutância. É por este motivo que prefiro os Ilford, em particular o FP4. Com estes rolos compenso o handicap de nitidez que as lentes Olympus têm em relação às Leica e às melhores Nikon. O Tri-X não me dá aquele tipo de resultados. Mais: nas ampliações há sempre uma ligeira perda de nitidez, pelo que interessa que sejam usadas as melhores lentes para que essa perda seja mínima. Como vêem, não é por acaso que as Leica são tão caras – nem é por ter sido pago para isso, ou por pedanteria, que HC-B as usava. Era por serem as melhores lentes e câmaras disponíveis para o formato 35mm.

Embora as questões técnicas não mereçam senão um lugar secundário, o que é certo é que HC-B sabia o que fazia do ponto de vista técnico. A questão é que fotógrafos como este não fotografam em função da técnica. Esta última, uma vez dominada, utiliza-se com naturalidade, tal como os comandos de um automóvel se tornam intuitivos depois da aprendizagem. Deste modo, uma vez dominada a técnica, o fotógrafo pode concentrar-se no essencial – a composição, o enquadramento e a descoberta de motivos interessantes. Técnica e conteúdo não são mutuamente excludentes; pelo contrário, as fotografias de HC-B provam a sua absoluta complementaridade.

M. V. M.

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