Cidade meretriz

OLYMPUS DIGITAL CAMERAOntem senti uma sensação de estranheza enquanto andava pelo centro da minha cidade: senti-me como se não pertencesse ali, que a minha cidade não era afinal minha; que fora invadida e os invasores haviam tomado conta dela e a colonizaram.

Em termos muito simples, o Porto prostituiu-se aos turistas. Vivo numa cidade que é uma meretriz. Apercebo-me que, no centro da cidade, tudo funciona em torno destas criaturas estranhas que nem sequer têm grande interesse como motivos fotográficos (normalmente são pessoas feias e mal vestidas): há um comércio miserável que se desenvolveu, feito de quinquilharias, pechisbeque e porcarias compradas na loja do chinês – viraventos, chapéus e óculos de sol, vendidos em bancas nos locais onde passam os turistas por valores muito superiores àqueles por que haviam sido adquiridos. Isto é indigno porque faz-nos – a nós, portuenses – passar por uns trafulhazinhos de terceiro mundo. As lojas vivem, na sua maioria, em função dos turistas; andar na Ribeira é como tentar furar através da multidão num comício, mas neste caso é uma multidão de paspalhos que se voltam e mudam de direcção imprevistamente, sempre de nariz no ar; a pedinchice instituiu-se, solicitando-se turistas para esmolas e para percursos turísticos manhosos; as casas da zona histórica – pelo menos aquelas que não estão ainda em ruínas – transformam-se em hostels que florescem a cada instante como cogumelos; a Douro Acima foi pioneira na organização de circuitos turísticos em autocarros abertos: agora há pelo menos mais três empresas a fazê-los, contribuindo para tornar o trânsito ainda mais caótico e desesperante; a Douro Azul iniciou os cruzeiros no Douro – agora a Ribeira e o cais de Gaia lembram o porto de Leixões em miniatura. E que dizer da Lello? Serei o único a perceber que, com aquelas invasões diárias de turistas, os seus interiores vão degradar-se muito para além das capacidades de restauro, manutenção e conservação dos seus proprietários? Por que permitem a invasão daquelas hordas de gente? Acaso não terão consciência de que estão a destruir lentamente a livraria? Olho para o seu interior e vejo os soalhos desgastados, os vernizes baços de tanto uso e as alcatifas puídas – numa apreciação superficial, porque há decerto mais marcas de deterioração que podem indiciar outros problemas. Este tipo de cupidez lembra-me, invariavelmente, o cliché da galinha dos ovos de ouro.

Esta invasão ocorre pela manhã, atinge o seu apogeu à tarde e não acaba à noite. Não tem horas. Também não tem férias nem descanso: acontece sobretudo no Verão, mas continua nas outras estações. Não conhece fins-de-semana nem feriados: é de segunda a domingo, sem pausas ou interrupções. Isto seria medianamente tolerável se os turistas fossem todos pessoas inteligentes que querem ver o Porto com olhos de ver, como o meu amigo Hendrik Lohmann e a sua belíssima mulher, mas não são: trata-se de gente que vem, no essencial, ver pedras. As pedras dos monumentos e das casas que conseguem vislumbrar através da multidão de outros turistas. Não levam lições de vida destas visitas nem aprendem nada: só vêm ao Porto porque é um destino barato. E os meus concidadãos, do presidente da câmara até ao arrumador mais maltrapilho, solicitam-nos, submissos e servis, esperando ser gratificados com as moedinhas que os turistas largam com parcimónia.

Isto não é bom. No curto prazo pode ter retorno, mas que acontecerá quando, como é mais ou menos inevitável, os donos dos hostels encarecerem as estadias e os comerciantes começarem, entusiasmados pelo número de turistas, a aumentar os preços? É que estes últimos não são ricos e de bom grado começarão a trocar o Porto por destinos mais baratos. Nesta altura a cidade deparar-se-á com um problema, que é o de o crescimento não ter uma estrutura sólida: apostou-se demasiado no turismo, com todos os males que procurei descrever acima, sem ter em conta a valorização de outras actividades, como se o turismo fosse a resposta para todos os problemas do Porto e todos os problemas se resumissem ao dinheiro. Não é exagero comparar isto a uma bolha, e as bolhas rebentam sempre.

O Porto está a tornar-se numa cidade estranha. Eu não gostava de como ela era há quinze anos, quando as pessoas tinham medo de andar na Baixa à noite, mas caiu-se no exagero oposto. Não é agradável andar numa cidade em estado de permanente confusão, como se fosse uma aplicação empírica da Segunda Lei da Termodinâmica (*). Ontem senti todo o desconforto que é andar no meio daquelas legiões apáticas e estúpidas e a repugnância de ver a indignidade com que o Porto se oferece aos turistas. Senti-me um estranho na cidade em que nasci e sempre vivi, descontada a estadia de cinco anos em Coimbra. Perdi a alegria de fotografar, apesar de estar a usar uma película que me traz uma sensação quase de euforia sempre que fotografo com ela. Arrumei a máquina e fui para casa. Onde vivo há gente rude, mas não há turistas.

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(*) Tudo o que é ordenado e útil tende para o caos e o inútil.

M. V. M.

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