Uma câmara nova todas as semanas

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Nem tudo foi mau na experiência que fiz com o Lomography Earl Grey. Além do ensinamento óbvio de não poder voltar a usá-lo por não me dar os resultados que pretendo, reforcei a minha convicção de que a escolha de um rolo é fundamental para a linguagem fotográfica. Cada um deve procurar o rolo – ou rolos – que melhor se adeqúem aos seus conceitos gráficos e estéticos.

Para além disto, porém, esta experiência falhada teve o efeito de marcar mais um ponto na coluna do «a favor» dos argumentos da fotografia convencional: com uma máquina fotográfica analógica podemos mudar radicalmente a estética das fotografias de acordo com a escolha do rolo. Com uma câmara digital estamos sempre adstritos a um sensor que invariavelmente irá conferir o mesmo aspecto a todas as fotografias. Estamos amarrados a este sensor que não pode, ao contrário dos rolos, ser mudado. Com uma máquina analógica eu posso usar um Tri-X ou um FP4 e obter resultados substancialmente diferentes; com uma digital, terei de recorrer ao computador para fazer variar a estética das fotografias.

O que, diga-se, até nem é muito mau. Com o programa de edição de imagem que tenho usado, posso dar às imagens a aparência que elas teriam se tivessem sido feitas com outra câmara: posso, por exemplo, fazê-las parecerem-se com o que seria uma fotografia feita com uma Nikon D3 e uma lente 50mm-f/1.4G. Posso até imitar rolos de slide como os Fuji Velvia e o Kodachrome 64. E teria um mundo de possibilidades se tivesse o plug-in DxO Film Pack.

Apesar de o meu ponto de vista estar próximo do dos puristas, devo reconhecer que isto não é mau de todo. Claro que nunca vou conseguir enganar ninguém se tentar convencer seja quem for que uma fotografia feita com a E-P1 foi feita com uma Leica M3 e um rolo Fuji Provia, mas posso alterar a estética com o esforço de um click, sem ter de esperar que o rolo que estou a usar acabe para só então poder usar outro diferente.
Simplesmente, isto seria uma falsificação; uma burla. Em contrapartida, com uma máquina analógica, posso mudar a estética das fotografias sem trocar de câmara e sem recorrer a truques informáticos. Note-se que é impossível dar a uma determinada película a estética de uma outra no laboratório: um Ilford FP4 será sempre distinto de um Kodak Tri-X e um Fuji Astia nunca se assemelhará a um Kodachrome. Este tipo de manipulação só é possível no domínio digital.

Será que isto significa que ter uma máquina fotográfica de película é mais flexível do que ter uma digital? Em parte, é. Se eu me cansar da estética das fotografias que faço com uma determinada câmara digital, a minha única alternativa é comprar outra de uma marca diferente, com todas as despesas que essa mudança implica. Com uma máquina analógica, basta-me mudar de rolo. O problema – e aquilo que atenua enormemente esta flexibilidade – é que fico preso a esse rolo até acabar de o expor. O que significa, por exemplo, que se tiver na câmara um rolo com um desempenho fraco em longas exposições, só posso fotografar à noite quando esse rolo acabar. O que me priva, evidentemente, de oportunidades fotográficas. Do mesmo modo, se estiver a usar um rolo para preto-e-branco e subitamente me surgir um motivo cujo principal interesse é a cor, sentir-me-ei um pouco frustrado. Mesmo que tivesse duas máquinas, uma com um rolo a cores e outra com um a preto-e-branco, a flexibilidade seria maior, mas teria sido conseguida à custa do lado prático: transportar duas câmaras é algo que já fiz, mas foram experiências que não me deixaram nada convencido.

Depois há aquela que é a grande vantagem do sensor: posso alterar a sensibilidade com um toque num botão, enquanto, para o fazer no domínio analógico, não só tenho de manusear um comando como preciso de comprar um rolo diferente – o que, de novo, significa que tenho de acabar o rolo que estou a usar, a menos que tenha outra câmara.

Seja como for, a flexibilidade a que aludi em alterar a estética das fotografias mudando de rolo existe. Não só existe como abre a porta a experimentações que não têm fim. Posso, no espaço de duas ou três semanas, mudar radicalmente o tipo de fotografia que faço, passando de cores garridas para outras mais discretas; no caso do preto-e-branco posso, no mesmo período de tempo, abandonar um género de fotografia límpida e isenta de grão em favor de outro mais granuloso, com mais carácter – se quiser. No digital só posso fazer isto se usar a edição de imagem para adulterar as características que a câmara deu às fotografias, o que não é bem o mesmo nem tem autenticidade.

M. V. M.

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