O Lomography Earl Grey

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Vou tentar ser o mais amável que puder. Eu simpatizo com a Lomography, com a Embaixada Lomográfica no Porto e com a lomografia em geral – apesar de não querer ser um seguidor. O que aquelas pessoas fazem é extrair prazer do acto de fotografar, tal como eu – com a diferença de eu não usar câmaras de plástico e poder, por vezes, parecer que me levo demasiado a sério. A mim e às minhas fotografias. Apesar desta diferença, a lomografia merece toda a minha estima.

Para analisarmos o fenómeno lomografia sem incorrer em injustiça ou sobranceria, temos de pôr de lado todas as concepções fotográficas a que estamos habituados. A lomografia não tem propósitos de criar obras-primas, as questões da técnica e do equipamento não são importantes, os lomógrafos não fotografam para ser reconhecidos, as regras da fotografia que conhecemos não se aplicam. É com olhos despidos de preconceito que devemos ver a lomografia. Vista assim é extremamente apelativa, embora se tenha tornado um fenómeno um pouco lifestyle demais para o meu gosto.

A Lomography não tem nada de pretensiosa, apesar de ter estado na vanguarda da defesa da fotografia convencional quando o digital tentou tomar a fotografia de assalto. Enquanto todas as marcas se voltavam para os computadores pequenos em que as câmaras se transformaram, a Lomography manteve vivos os formatos 135 e 120. Há muito mérito nisto. É até possível que, sem a Lomography, a fotografia convencional estivesse hoje extinta.

Dito isto, o material da Lomography não tem qualidade. Isto aplica-se às máquinas, mas também, como descobri ontem, aos rolos. Como sabem, experimentei um rolo Lomography Earl Grey, mais por a Embaixada Lomográfica ser a única loja de fotografia honesta aberta a um Domingo do que pela curiosidade em experimentá-lo; contudo, essa curiosidade veio mais tarde, já com aquele rolo na máquina. Foi com alguma expectativa que esperei pelas digitalizações deste rolo: afinal, foi o rolo para preto-e-branco mais barato que já comprei. Se fizesse um bom serviço, poderia ser uma escolha muito interessante.

O mínimo que posso dizer é que fiquei desiludido. Quando escrevi sobre o Kodak Ektar 100, usei uma expressão vernacular para o definir. Não vou fazer o mesmo aqui porque prometi, no início do texto, que ia tentar ser simpático, pela consideração que o movimento lomográfico me merece. Eu não diria que este é o pior rolo que já experimentei – quanto mais não fosse por causa do Ektar 100 –, mas posso dizer que o Lomography Earl Grey não se compara com o Ilford FP4, que não ficou nada ameaçado no seu 1.º Lugar do Ranking M. V. M. de Películas. Também não é melhor que os Kodak Tri-X e T-Max. É pior que os outros Ilford que usei. E é pior que o Agfa APX 100. Como, com esta enumeração, esgotei a minha lista de rolos para preto-e-branco, só resta concluir que o Lomography Earl Grey é o pior que já usei.

Ao contrário do Agfa APX 100 – que, por ser o segundo rolo mais barato que comprei até hoje, é o que melhor se presta a uma comparação –, o Lomography Earl Grey é falho em contraste e em acutância. O mesmo que dizer que as imagens que produz são planas e muito pouco nítidas. O APX 100 tem um defeito, que é uma abundância inexplicável de grão para um rolo de uma velocidade tão baixa, mas o Earl Grey parece um rolo ASA 400 exposto com a máquina regulada para 100, de tão abundante e grosseiro que o seu grão é. A sua semelhança com os rolos ASA 400 é reforçada pelo facto de todas as fotografias que fiz com este rolo terem ficado sobreexpostas, com altas luzes violentamente estouradas, mesmo quando regulei a exposição para que o ponteiro do fotómetro ficasse a meio da escala. Isto é inexplicável. Nunca me aconteceu com nenhum outro rolo. Obrigou-me a usar a edição de imagem muito para além do que considero ser o meu limite – e mesmo assim ficaram os problemas irresolúveis da falta de nitidez e do excesso de grão.

Vou voltar a ser simpático e especular que este é um rolo perfeito para as imagens lo-fi de que alguns lomógrafos gostam: é o rolo ideal para as Holga e as Lomo e para o tipo de qualidade de imagem que caracteriza a lomografia. Simplesmente, a apresentação deste Lomography Earl Grey não é para mim. Eu fui demasiado mimado pelo melhor rolo para preto-e-branco que existe à superfície da terra, o Ilford FP4 Plus 125. É o rolo que, uma vez compreendido, me dá exactamente o que quero da fotografia a preto-e-branco: contraste, acutância, limpidez (mas não tanta que desvirtue o preto-e-branco pela ausência total de grão) e latitude na exposição. O Lomography parece ter sido concebido para ser o antónimo destas qualidades. Se tivesse uma La Sardina ou uma Fisheye 2, porém, talvez este fosse o meu rolo de eleição.

M. V. M.

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