Nem assim…

wordsParece que também não vou lá com poesia. Transcrevo um dos poemas mais belos de sempre num texto e o resultado foi este ter sido lido pela multidão inimaginável de… quatro pessoas.

Não sei que pensar disto. É justo que diga que tenho leitores que me incentivam a escrever, mesmo quando trato temas que extravasam da fotografia – mas, ao interpretar as estatísticas deste blogue, fico com a sensação frustrante de que todo o interesse da comunidade fotográfica lusófona se resume à questão da «abertura equivalente».

Eu não posso dedicar todos os textos do Número f/ à «abertura equivalente»: esta é apenas uma questão falsa que induz as pessoas em erro pela maneira como é enunciada. Não é mais que isto. Seja como for, eu não posso escrever todos os dias sobre este assunto. Porque não há matéria para tanto e porque é, como disse, uma questão falsa – e de interesse muito reduzido, devo acrescentar.

Tenho para mim que a fotografia, pelo menos ao nível em que eu a assumo, é uma forma de expressão artística. Ora, na minha concepção, um artista não é, não pode ser, um bronco, um inculto que só se preocupa com o equipamento e que analisa as suas características da mesma maneira que uma criança que olha para o painel de instrumentos de um automóvel. Decididamente, essas pessoas não são as que quero que constituam o núcleo de leitores do Número f/.

Já quem se interessa por fotografia artística tem, não o direito, mas a obrigação de se ilustrar, de expandir os seus interesses para além da fotografia. Cada fotografia deve ser um acervo de conhecimentos. Uma fotografia feita com intenção artística incorpora tudo o que o seu autor é e tudo o que o seu autor viu e aprendeu: as suas concepções políticas e sociais; as suas opções estéticas; as filosofias que segue; os livros que lê, os filmes que viu (o cinema devia ser uma fonte poderosa de inspiração fotográfica), a música que ouve, a arquitectura que o impressiona, as esculturas que olha – tudo isto enforma cada fotografia que o artista-fotógrafo faz.

A técnica, essa, é um mero auxiliar. É importante para que saibamos exprimir o que vemos, mas as coisas terminam aqui. O que realmente interessa é isto: o artista-fotógrafo fotografará tanto melhor quanto mais expandido for o seu universo interior. O William Wordsworth não foi transcrito naquele texto por acaso, nem para impressionar os leitores com a minha erudição: sou um homem de uma idade em que se sente que a juventude fugiu, mas sei que, nesta idade que torna filosófica a mente, não devo olhar o passado com tristeza nem pensar na juventude e nos jovens com a dor de não ser como eles. Foi por esta razão que liguei o Esplendor na Relva àquela rapariga que fotografei vivendo, singela e simplesmente, a maravilha de ser jovem, a liberdade e despreocupação de ser nova: ela era o esplendor na relva, a glória numa flor que William Wordsworth versou. Foi por isto que a quis fotografar.

Da mesma maneira, procuro a inspiração para as minhas fotografias nas minhas concepções visuais, estéticas, arquitectónicas, musicais (eu procuro introduzir um sentido de «orquestração» nas minhas composições, mesmo que isto nem sempre seja aparente) e, sobretudo, na impressão que as coisas me causam. Quero que as minhas fotografias exprimam algo de mim e do que eu sou.

Gostava que o Número f/ fosse lido por pessoas que pensam desta maneira, que os meus leitores fossem pessoas conscientes de que uma fotografia nunca é apenas uma fotografia, mas o repositório de tudo o que o seu autor é. Num texto recente escrevi que o uso de película torna quem fotografa mais consciente da responsabilidade que é uma fotografia. Não quis, com isto, usar o termo «responsabilidade» com o seu significado estritamente jurídico: é uma responsabilidade porque, quando mostramos uma fotografia, estamos a mostrar o que somos a um público. Este não vai julgar apenas as aptidões técnicas da fotografia: vai tentar perceber a mente de quem a fez. E este é um julgamento particularmente impiedoso, porque uma fotografia não pode ser explicada pelo que fica fora dela: as pessoas que a vêem não o sabem. Temos de saber incorporar na fotografia tudo o que queríamos dizer, caso contrário ela e o seu autor ficarão incompreendidos.

Porque a fotografia é uma arte – lamento, mas não tenho tempo aqui para as selfies e as fotografias meramente ilustrativas que se publicam no Facebook –, entendo que esta deve ser um todo e que cada imagem deve ser uma manifestação desse todo que somos e que queremos exprimir. Isto não se faz só com a técnica. Saber que a lente x se comportará como se fosse uma lente y quando montada na câmara z não ajuda ninguém a exprimir os seus ideais fotográficos. Saber o que acontece quando se usam tempos de exposição longos, porém, ajuda a conferir expressão à fotografia. É por este motivo que a técnica importa, mas o seu interesse não pode dominar a fotografia ao ponto de esta se tornar numa demonstração de saber técnico. Uma imagem destas pode impressionar quem a vê, mas será uma impressão superficial que fará com que a fotografia fique esquecida no meio de milhões de outras idênticas.

Se publico textos fora do tema no Número f/, não é por acaso. Nem os temas abordados nestes textos são impertinentes na fotografia, porque tenho uma concepção holística desta arte. Se a fotografia – cada fotografia – incorpora tudo o que somos, este tudo o que somos tem, obviamente, lugar no Número f/. Seja design automóvel, música, cinema, literatura ou temas sociais. Nada existe a se, tudo está ligado. É muito importante compreender isto. Quem não o fizer não pode entender a fotografia, a não ser de uma forma muito rudimentar.

M. V. M.

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3 thoughts on “Nem assim…”

  1. Tenho no meu quintal, um limoeiro que dá sempre poucos limões. Para os apanhar tenho que carregar uma escada, encostar-la, subir, suportar as picadelas dos espinhos (sim, porque os limoeiros têm grandes espinhos), e corro o risco de cair, mas apesar destas dificuldades e de os limões serem poucos e azedos, eu continuo a regar o limoeiro para que ele não seque, porque, que eu saiba, apesar de azedos, não há fruto que o substitua.
    Não sei ler inglês e apesar da tradução do Google deixar muito a desejar, li e gostei do poema e do seu texto também.

    “O génio, esse poder que deslumbra os olhos humanos, não é outra coisa senão a perseverança bem disfarçada.”
    Johann Goethe

    M M M

    1. M M M: ignorando a métrica e as rimas, para as quais não tenho jeito, o poema traduzir-se-á, no seu sentido, mais ou menos assim:

      Mesmo que a luz
      Outrora tão brilhante
      Agora seja tirada para sempre da minha vista,
      Mesmo se nada pode trazer de volta a hora
      Do esplendor na relva,
      Da glória numa flor,
      Não sofreremos, antes encontraremos
      Força no que ficou para trás;
      Na primeva simpatia
      Que, tendo sido, deve sempre ser;
      Nos pensamentos reconfortantes despertados
      Pelo sofrimento humano;
      Na fé que vislumbra para lá da morte
      Nos anos que tornam a mente filosófica.

      Como li numa T-Shirt: “Fuck Google, ask me” ;-)

      Obrigado pelo tempo que dispensa ao meu blogue.

      M. V. M.

      1. Não precisa de agradecer eu é que agradeço.
        Obrigado por se dar ao trabalho de traduzir o poema.
        Cumprimentos.

        M. Machado

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