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William_Wordsworth_by_Henry_William_Pickersgill

Na Quinta-feira à noite fui fotografar para o centro do Porto. Como sempre faço quando fotografo à noite, levei o tripé. Armar o tripé, e recolhê-lo depois de fotografar, é profundamente fastidioso, mas não conheço outra maneira de fotografar quando os tempos de exposição vão de 1/15 a 1/1 – se a luz for favorável e não obrigar a usar o modo bulb. Por vezes ponho-me a sonhar com um tripé motorizado que estendesse e recolhesse as pernas automaticamente, ou com uma câmara (inexistente) que me permitisse fotografar à noite com 1/250 sem grão ou ruído. Subia a Travessa de Cedofeita e cruzei-me com um homem de cerca de 30 anos, com um ar amalucado – ou, se não sofresse de distúrbios psíquicos, estava pelo menos com uma bêbeda considerável. Ao ver-me, lançou a seguinte frase: «Quem tem um tripé tem tudo!» Ri-me, mas fosse o que fosse que o indivíduo queria dizer com aquilo, é uma grande verdade. Nada substitui um tripé para fotografar à noite.

Pouco depois deparei com a Casa Margaridense, ainda na Travessa de Cedofeita. Esta loja, que agora faz também as vezes de um bar trendy (até quando é que a bolha da movida portuense vai durar sem rebentar?), é belíssima, com os seus móveis de madeira típicos das lojas antigas: tudo bem organizado, com prateleiras e armários dispostos de modo funcional, um balcão lindíssimo, também de madeira, que faz os clientes sentirem-se bem acolhidos. Entrei e perguntei a uma jovem, que se entretinha com o seu notebook na parte trendy, se podia fotografar. Nenhuma objecção. Corrreu tudo bem, excepto o facto de ter sentido necessidade de uma grande-angular de distância focal inferior a 28mm. Esta aceitação do acto de fotografar no interior daquele estabelecimento leva-me a perguntar por que não pode toda a gente agir assim: ao autorizar a fotografia, estão a publicitar o estabelecimento – ainda que para um público restrito.

O mesmo tipo de pensamentos foi-me suscitado neste Sábado. Passei pela Câmaras & Companhia para deixar o Lomography Earl Grey – o que significa que vamos ter recensão muito em breve! – e comprar outro rolo. A escolha foi para o Ferrania Solaris 100, um rolo que me faz sentir uma alegria muito especial em fotografar. A força da gravidade fez-me descer até à Ribeira. Como é habitual e faz parte da paisagem, um bando de miúdos saltava para o rio aproveitando o passadiço de um dos cruzeiros do Douro (outra bolha que vai estourar se a crise económica continuar). Uma rapariga de doze ou treze anos, vestida de vermelho – o Ferrania faz-me procurar cores vivas e alegres –, estava estendida ao sol no chão de granito, num esplendor de juventude que me trouxe à memória o poema de William Wordsworth:

What though the radiance
Which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
Of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.

Perguntei-lhe se podia fotografá-la. A resposta foi pronta, simples e concisa: «Claro!» Depois fez um sorriso só possível quando se é uma rapariga de doze ou treze anos. E eu perguntei-me outra vez por que não pode toda a gente ser assim, simples e tão desprovida de malícia que consegue perceber quando não há malícia nos outros. Este sim, é o povo do Porto!

M. V. M.

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