A fotografia convencional como método de aprendizagem (antecedido de um pequeno prólogo sobre o bungee jumping na terceira idade)

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Caso não o tenham percebido ao ler o texto de ontem, o geronte que fez bungee jumping aos oitenta e cinco anos foi inventado por mim. Pensava que tinha congeminado uma hipérbole absurda, mas uma breve pesquisa no Google fez-me perceber que a minha personagem fictícia é um jovenzinho quando comparado com um sul-africano de 96 anos chamado Mohr Keet, que, não contente por ser o saltador mais velho do mundo, registado no Guinness Book of Records e tudo, se propõe bater o recorde de saltador mais velho a saltar a altura maior – ou qualquer coisa assim. Como vêem, a realidade é mais estranha que a ficção.

Feito este esclarecimento, vou versar o tema que me havia proposto ontem: o da importância da aprendizagem da fotografia através da fotografia convencional. Faz todo o sentido que quem se inicie na fotografia artística comece com uma máquina fotográfica de película, e não com uma digital. Apesar de as razões que vou enumerar aqui já terem aparecido em textos anteriores, penso que não é demais relembrá-las.

Antes de tudo, fotografar com película obriga a pensar. O número de fotografias possíveis é limitado, pelo que há, em primeiro lugar, que escolher bem o motivo. Esta escolha desencadeia uma série de opções estéticas, estilísticas e de design e, sobretudo, uma avaliação muito cuidadosa do interesse do motivo. Esta escolha torna o aprendiz de fotógrafo mais consciente do valor artístico dos motivos, o que não pode deixar de se repercutir na qualidade do seu trabalho.

Depois há a avaliação do momento. Porque o número de fotogramas é limitado, a escolha da oportunidade fotográfica torna-se crucial. Isto obriga a desenvolver um conhecimento intuitivo dos controlos da câmara e a uma maior rapidez na aplicação das técnicas. À obrigação de pensar a fotografia acresce a de pensar rapidamente. Por seu turno, o sentido de oportunidade sai largamente beneficiado: só há uma oportunidade que não pode ser perdida e há que tirar o melhor partido possível dela, sem lugar a erros.

E há o domínio da técnica. Embora as câmaras automáticas tenham aparecido nos anos 70, permitindo que o fotómetro se substitua ao utilizador da máquina nas opções relativas à exposição, continua a ser verdadeiro que as câmaras convencionais são o melhor meio de aprender a controlar a exposição. Nelas todos os controlos tendem a ser manuais. Isto obriga a conhecer a lei da reciprocidade na perfeição, a dominar os comandos da câmara e, sobretudo, a perceber que a essência da fotografia é a captação de luz. A fotografia convencional ajuda a compreender melhor a luz e como ela deve ser aproveitada em favor da imagem.

Há mais. As câmaras convencionais tendem para a imprevisibilidade dos resultados, a qual só pode ser contrariada se o fotógrafo, ou aspirante a este estatuto, souber como se relacionam as variáveis da exposição e como usá-las. A fotografia convencional não é tão complacente com os erros como a digital. Com esta há sempre – embora uma oportunidade perdida seja igualmente irrepetível – uma possibilidade de recomeçar, de fazer de novo. Na fotografia convencional uma fotografia falhada é irreversível, é algo que perseguirá o estudante. Para a evitar há que dominar completamente o processo fotográfico.

Há um factor que torna todas estas considerações ainda mais prementes: na fotografia convencional existe uma consciência muito clara de que cada fotograma tem um preço. Neste domínio não pode haver lugar ao desperdício. A fotografia digital causa a ilusão de que fotografar fica barato, mesmo que o preço do equipamento infirme esta conclusão, o que induz a tentação de fotografar qualquer coisa de qualquer maneira. Quando se usa uma máquina fotográfica de película, porém, são proibidas fotografias absurdas, fotografias determinadas pelo mero impulso de fotografar ou fotografias falhadas. Cada um destes erros se repercute num desperdício que importa evitar a todo o custo, o que torna o estudante de fotografia mais consciente do valor da fotografia. Não apenas do valor monetário, note-se bem, mas do seu valor intrínseco – da sua preciosidade, da raridade do momento que se captura e da responsabilidade que é fotografar com uma intenção artística.

O laboratório traz outro tipo de ensinamentos. Nele aprende-se que o processo fotográfico não termina depois de pressionar o botão do obturador. O mais comum é que, uma vez exposto um rolo, este seja entregue num laboratório para que outrem se encarregue da revelação, mas fazer isto é conhecer apenas metade de todo o caminho que leva até à fotografia final. Há inúmeras variáveis que interferem na qualidade final e são muitas as opções que podem ser tomadas na revelação. O que não se pode fazer no laboratório, porém, é tornar uma má fotografia numa boa fotografia. A revelação não isenta de erros. A edição de imagens digitais é mais complacente, permitindo a correcção de muitos erros – embora também não seja capaz de atribuir valor intrínseco a uma fotografia.

Tudo isto tem necessariamente de formar melhores fotógrafos. Não é por acaso que se aprende a fotografar com película nas boas escolas de fotografia. O digital não é a melhor forma de aprendizagem: embora não isente de conhecimentos, este meio é muito mais complacente com os erros e permite uma monitorização dos resultados. Com o digital não se sente (embora exista) a necessidade de fazer bem à primeira. Enquanto o digital está vocacionado para o automatismo, sendo os controlos manuais uma opção, a fotografia convencional é exactamente o oposto. Na primeira, pode-se renunciar ao controlo e deixar que seja a câmara a tomar opções por nós; as máquinas fotográficas convencionais implicam um domínio completo do processo fotográfico. Daí que sejam melhores instrumentos didácticos que as câmaras digitais. Estas tendem a convidar à autocomplacência; as outras não perdoam os erros. Cada fotografia falhada é uma mostra de inépcia.

M. V. M.

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