Mudar de vida

belomonteSerá que sou daquelas pessoas que, em idades serôdias, gostam de se aventurar e descobrir novas actividades? Muitas vezes deparamos com notícias da avozinha de setenta anos que decidiu saltar de para-quedas, ou o geronte de oitenta e cinco anos que se propôs fazer bungee jumping e outros insólitos que nos lembram que a expressão nunca é tarde é verdadeira. Há alguns anos estava a nadar numa piscina municipal aqui do Porto e reparei num homem de idade que nadava com um estilo admirável: a maioria das pessoas como ele mal mexe os braços quando nada (se é que se pode chamar nadar àquilo que elas fazem), mas aquele homem era senhor de uma técnica que me impressionou. Encontrei-o no balneário e disse-lhe isto mesmo. Fiquei a saber que aquele nadador tinha setenta e quatro anos e havia aprendido a nadar no ano anterior.

Eu comecei a fotografar com quarenta e seis anos, idade que não pode ser considerada provecta mas é certamente serôdia para uma aprendizagem. À oportunidade tardia juntou-se uma aprendizagem com todas as fragilidades e insuficiências do autodidactismo, as quais foram apenas disfarçadas por um workshop no Instituto Português de Fotografia. Foi excelente, mas não me parece que tenha completado a minha aprendizagem.

Esta espécie de divagação surgiu-me por me ter proposto escrever um texto sobre a aprendizagem da fotografia e a necessidade de dominar a fotografia convencional para entender o processo fotográfico (este texto ficará para depois); pesquisei os locais onde se pode aprender fotografia no Porto e, além de cursos em centros privados onde não há tempo para se aprender seja o que for a não ser mexer numa máquina digital (o que, convenhamos, não tem nada de particularmente complicado) e do curso do Instituto Português de Fotografia, encontrei o website da Escola Superior Artística do Porto. Este estabelecimento de ensino ministra um curso de Artes Visuais – Fotografia, definido no website como um «curso do 1.º ciclo de estudos do ensino superior, de cariz universitário, conferente do grau de licenciado». O plano do curso pode ser consultado seguindo esta ligação: parece-me ter uma base muito sólida na vertente artística da fotografia e nas práticas laboratoriais.

Esta descoberta, além de me ter ajudado a perceber de onde provêm todos aqueles jovens que vão comprar rolos Fomapan à Câmaras & Companhia, deixou-me com uma ideia estranha: e se eu me licenciasse em fotografia? O meu sentido prático poderia fazer-me rejeitar imediatamente esta ideia, mas é extremamente atraente: poderia ficar a saber tudo o que não sei sobre fotografia; seria uma forma de saciar o meu apetite por conhecimentos e, por último, poderia elevar-me da mera condição de amador em que estou actualmente. Visto assim seria uma aventura excitante!

Claro que há sempre o reverso: propinas que são certamente caras, um investimento de tempo que não tenho – não apenas por o curso ser de três anos, mas por precisar de tempo para estudar e aplicar-me – e a possível sujeição a provas de acesso. Além de poder ficar com a sensação amarga de estar a atirar cinco anos de estudos universitários e vinte e três de actividade profissional pela janela fora.

Espero que o leitor compreenda agora a pergunta com que este texto começa. Isto seria um verdadeiro recomeço numa idade que, não me qualificando para uma Universidade Sénior, é talvez um pouco tardia para um empreendimento desta natureza. O que é certo, porém, é que a tentação é extremamente forte. Fazer este curso seria extraordinário e, abstraindo dos pormenores de ordem prática, só vejo vantagens. Expandiria os meus conhecimentos de uma maneira impensável, sem as desvantagens da excessiva vocação profissional do curso do Instituto Português de Fotografia, e valorizar-me-ia. Pode muito bem acontecer que amanhã de manhã esta ideia tenha desaparecido por completo, ou apenas me lembre dela como um devaneio ridículo – mas o mais provável é que fique a ponderar longamente esta ideia.

De qualquer maneira, seria bem menos perigoso que o bungee jumping

M. V. M.

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