Bertone

1970_Bertone_Lancia_Stratos_Zero_09

Aviso: este é mais um daqueles textos fora do tema. As entradas do Número f/ que não versam exclusivamente temas de fotografia são imensamente impopulares, mas não consigo proibir-me de escrevê-las. Bem vêem: eu tenho outros interesses para além da fotografia. Apesar do tempo que lhe dedico, arranjo sempre algum para pensar noutros assuntos.

Curiosamente, a inspiração para este texto veio da fotografia. Mais exactamente de quatro fotografias que fiz no Sábado de manhã. Quando procurava lugar para estacionar nas imediações do Hospital de Santo António, depois de ter decidido fazer mais uma dádiva de sangue, passei por um automóvel extremamente distinto que, embora não tivesse visto mais que a sua parte posterior, me intrigou por sobressair da paisagem automóvel monótona: baixo, largo, com linhas tensas mais ou menos típicas dos finais dos anos 60 e início dos 70. Despertou instantaneamente o meu interesse pela fotografia de automóveis, que pensava ter definitivamente desaparecido.

imagesDepois de encontrar lugar para estacionar, fui imediatamente ter com o automóvel: felizmente ainda estava no lugar onde o vira. O meu interesse ficou instantaneamente justificado quando percebi que estava diante de um Alfa Romeo Montreal, automóvel desenhado pelo estúdio Bertone, a esse tempo chefiado por Marcello Gandini – o autor dos maravilhosos Lamborghini Miura e Lancia Stratos HF. Fotografei-o com o maior entusiasmo possível (n. b. a fotografia ao lado não é minha), mas só alguns dias mais tarde me veio a percepção de que havia sido honrado com a possibilidade de fotografar um dos produtos mais interessantes da casa Bertone, que por seu turno é uma das mais ilustres da história do design automóvel e da qual saíram alguns dos carros mais prodigiosos de sempre. É também o meu estúdio de design automóvel favorito, apesar de estar em declínio desde os anos 90 e hoje estar à beira da insolvência.

A minha apreciação do design Bertone não é incondicional. Muitos dos seus automóveis (especialmente os desenhados nos primeiros anos da década de 80) estão hoje irremediavelmente datados, com as suas linhas excessivamente rígidas, e alguns dos seus protótipos são francamente feios. Tomemos o exemplo do Citroën BX: embora tenha feito sensação em 1982, ano do seu lançamento, hoje é impossível contemplá-lo e considerá-lo um automóvel bonito. O mesmo com protótipos dessa época como o Rainbow ou o Lancia Sibilo. Infelizmente, a Bertone ficou associada a este estilo, feito de linhas em cunha e ângulos rectos, e a procura dos seus serviços diminuiu drasticamente – apesar da beleza de automóveis como o Alfa Romeo GT da década passada.

ferrari_dino_308_gt4_10Contudo, quando a Stile Bertone desenhou automóveis bonitos, contribuiu para revolucionar o design automóvel e criar novas referências estéticas. Um dos automóveis mais belos de sempre, o Lamborghini Miura, foi desenhado pelo já mencionado Marcello Gandini, então com 22 anos de idade. Foi sob a direcção de Gandini que a Bertone lançou automóveis e concept cars como o Lancia Stratos Zero (imagem do topo), o Alfa Romeo Carabo e o Lamborghini Urraco. Ou o Ferrari Dino 308 GT4 (acima), um dos poucos Ferrari verdadeiramente elegantes e o único até então cujo desenho foi entregue a um estilista que não fosse Pininfarina. Os protótipos Bertone deste tempo eram excessivos, ultrajantes, extremos – e muitas das suas marcas visuais passaram para os automóveis de produção, que figuraram entre os mais ousados e futurísticos construídos até então. Depois vieram os anos 80, e com eles a mediocridade do design automóvel de que só há pouco começámos a ver-nos livres.

O Alfa Romeo Montreal é um desenho típico da Bertone sob a direcção de Marcello Gandini. É um automóvel exuberante, com pormenores de design altamente distintos como as grelhas que cobrem parcialmente os faróis dianteiros e as entradas de ar junto ao pilar central, bem como os vidros laterais em arco, tal como os do Lancia Stratos HF e do Lamborghini Miura. O Montreal não é um automóvel belo, nem é certamente intemporal – mas é um daqueles carros que causam uma impressão visual duradoura e que marcam indelevelmente o design automóvel italiano. Além de ser uma bomba, com o seu motor V8 de 200 CV, suspensões de duplo triângulo e diferencial autoblocante.

A tudo isto há que acrescentar um factor importante: a raridade. O Alfa Romeo Montreal não é um automóvel que se veja todos os dias, pelo que, além da honra de fotografar um produto emblemático da casa Bertone, tive também uma sorte incrível em encontrá-lo. Este automóvel é bem mais raro que o Citroën DS que tão afincadamente procurei durante dois anos. (Por falar em Citroën: esta marca bem podia recorrer aos serviços da Bertone, como fez com o BX, XM e Xantia. Os Citroën de hoje conseguem ser mais feios e rebuscados que os piores Hyundai.) Fico sem saber se ter-me cruzado com este carro e ter a máquina fotográfica à mão foi uma coincidência feliz ou uma dádiva do destino.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s