The Man-Machine

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O melómano e audiófilo que existe em mim teve ontem um dos dias mais felizes da sua vida: andava eu a vaguear pela cidade e passei pela Praça Carlos Alberto, onde estava montada uma daquelas feiras a que os britânicos chamam flea market (ainda bem que ninguém ainda se lembrou de fazer uma tradução literal para «mercado da pulga»). A primeira banca, contada a partir da Rua de Cedofeita, era de venda de discos; como vim a saber mais tarde, era uma extensão ao ar livre da Vinyl Disc, espaço que abriu recentemente num terceiro andar da Rua Ramalho Ortigão. Os discos estavam dispostos em caixas de plástico branco, separados por género, e eu, por motivos que vão compreender se me acompanharem mais um pouco, comecei a bisbilhotar os que estavam no compartimento que dizia «electrónica». Percorri os A, os B, os C, e assim sucessivamente, até chegar aos K. E lá estava o ansiado, o disco que mais me tem vindo a obcecar (juntamente com o The Golden Age, de Woodkid) nos últimos tempos: The Man-Machine, dos Kraftwerk. O melhor LP de todos os tempos. Uma conversa com o vendedor fez-me perceber que estava diante de alguém honesto e que sabia do que falava, mas não deixei de inspeccionar o LP. Não tinha riscos visíveis, pelo que não hesitei muito em trazê-lo para casa. O disco estava num estado aceitável: vai precisar de uma limpeza para retirar a estática e reduzir o som de batatas a fritar que se ouve entre cada faixa, mas está perfeitamente audível, sem desgaste nem riscos.

Por muitas vezes tenho feito aqui analogias entre discos e fotografia para ilustrar as diferenças entre a fotografia convencional e a digital. Contudo, é justo que diga que esta comparação não é inteiramente aplicável: a fotografia digital evoluiu muito e está quase a par da convencional, só lhe faltando melhorar a gama dinâmica (especialmente nas altas luzes); as gravações digitais, por seu turno, não estão nem perto de superar o som analógico: não existe nenhum aspecto em que se possa dizer que o som digital é melhor que o analógico. Nenhum. Zero. Népias. Nicles. O som analógico é esmagadoramente superior ao digital. É cem vezes melhor que o som dos melhores CD e seria insultuoso compará-lo ao MP3 ou outros formatos digitais. O digital pode ser mais prático, mas nada – repito: nada – se compara ao som de um LP misturado directamente a partir das master tapes e tocado num gira-discos decente equipado de uma boa cabeça de leitura. Não precisa de ser um SME Model 30, nem a cabeça tem de ser uma Dynavector XX: um Rega Planar 3 com uma cabeça Ortofon já permite discernir as vantagens do som analógico em relação ao digital.

Há, no som de um bom LP, uma separação, uma claridade e uma transparência que podem assustar quem pela primeira vez tiver acesso a bons meios de reprodução: é o som mais dinâmico que se pode conceber. É como se as notas ganhassem vida e se materializassem na sala de escuta. As notas aparecem e desaparecem com uma vivacidade que simplesmente não está ao alcance dos meios digitais: nestes, o som é plano, mas há mais: todos os aparelhos digitais de reprodução sonora sofrem de um problema designado jitter (que pode ser traduzido por «oscilação»), que é uma distorção subtil do som que lhe rouba nitidez, como se esbatesse os contornos das notas. Em consequência, o som é mais soft, mais unidimensional, menos presente e menos dinâmico. No caso dos agudos, como o som de címbalos, o efeito do jitter pode ser simplesmente repulsivo.

Uma área em que o som analógico é inigualável é a reprodução dos graves. Esta gama de sons é incomparavelmente mais dinâmica e, sobretudo, mais inteligível. Não há comparação possível entre o grave de um CD e o de um bom LP: neste último as notas do baixo estão mais presentes e são mais fáceis de seguir. O The Man-Machine é um excelente exemplo: ao ouvir este LP – que é uma gravação analógica pura, e não uma remistura digital – através do meu sistema, apercebi-me de graves que nem sequer sabia que existiam – e, sobretudo, não sabia que eram tão intensos, tão fortes. Mas este grave, tal como toda a escala de tons, é apresentado com um timing, uma precisão que pode deixar os digitalistas em estado de choque.

Muitas pessoas têm a ideia de que o som do vinil é ou gordo e com baixos borratados ou insubstancial. Estas pessoas, que provavelmente são as mesmas que pensam que as fotografias com película são todas desfocadas e com cores deslavadas, estão erradas: apesar de o som do vinil poder ser frio quando ouvido através de um sistema excessivamente analítico – algumas cabeças Ortofon de bobina móvel produzem este efeito –, o som de um bom LP é o mais fiel à realidade que existe. As dinâmicas são incrivelmente enérgicas e, quando usados bons meios de reprodução, o som é extremamente neutro e preciso: os agudos são suaves, a gama média projecta-se com naturalidade e os graves são cheios e dinâmicos. Mas isto, repito, só acontece nos LP gravados de modo puramente analógico, a partir da master tape. Os LP que saem hoje em dia são gravados digitalmente, o que significa que se está a ouvir o som de um CD em formato vinil, com os inconvenientes de ambos os formatos.

No caso de se estarem a interrogar qual a minha opinião sobre a música (e não apenas o som) deste The Man-Machine, apenas direi que não leram o primeiro parágrafo com atenção: quando o cunhei de «o melhor LP de todos os tempos», estava a referir-me ao conteúdo musical. É isto que, de forma sintética, penso de The Man-Machine. Por muito que tente, não consigo formular nenhum elogio mais veemente do que este. É muito simples: se não fosse este álbum, a música que ouvimos agora seria completamente diferente. Convém, contudo, sublinhar que Herren Florian Schneider e Ralf Hütter foram sempre uns obcecados pela qualidade do som e que, em consequência, os Kraftwerk têm o seu próprio estúdio em Düsseldorf, o Kling Klang Studio.

Talvez este texto ajude a explicar por que razão decidi chamar a uma série de fotografias nocturnas que estou a publicar no Flickr, na qual predominam reclamos luminosos, Neon Lights

M. V. M.

 

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