Fotografar à noite com película

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Os meus leitores sabem que gosto de fotografar à noite. Se por acaso andarem pela zona da movida ou pela Baixa à noite e se cruzarem com um tipo de estatura meã e cabelo curto a vagabundear com um tripé na mão, cumprimentem-no: sou eu. Sou facilmente reconhecível por usar uma Olympus OM-2n. (Se não for eu é outro apaixonado da fotografia nocturna muito parecido comigo: cumprimentem-no na mesma, porque o cumprimento não terá sido desperdiçado.)

Foi uma surpresa descobrir que era capaz de fazer fotografias à noite com rolos: pensei sempre que ia ser um fracasso, porque, por mais que se conheça a técnica, o resultado é, no essencial, imprevisível. E eu já falhei uma por ter confiado nas indicações do fotómetro, que leu a luz de um candeeiro de iluminação pública e me induziu a usar um tempo de exposição demasiado curto (talvez agora compreendam melhor por que me refiro tantas vezes ao fotómetro como um tirano malvado que conspira para arruinar as minhas fotografias), mas posso dizer que, fora este caso, consigo acertar com a exposição nas fotografias nocturnas. Mesmo sem ter oportunidade de ver num ecrã a fotografia que acabei de fazer, porque na OM-2 esse ecrã não existe.

Deste modo, fotografar com rolos à noite tem sempre algum risco. Mesmo se tenho o auxílio posterior da edição de imagem para levantar as sombras ou baixar as altas luzes se algo correr mal, a minha preferência por fazer bem à primeira leva-me a tentar tudo o que sei para que a exposição seja a correcta e a fotografia possa ser usada tal como a recebo depois da digitalização dos negativos.

Nas fotografias que faço à noite uso dois métodos: um é confiar no fotómetro, expondo conforme queira privilegiar as sombras ou as luzes. Isto implica, em regra – mas nem sempre –, tempos de exposição longos, tendo frequentemente usado valores como 1/2 ou mesmo 1/1. O outro método é recorrer ao bulb e usar um cabo disparador. Uso o primeiro quando quero fotografar objectos em movimento, apesar de saber que esse movimento vai surgir com arrastamento. É isto mesmo que eu quero. Se o movimento for demasiado rápido, fazendo com que o objecto desapareça se usar tempos de exposição demasiado longos, aumento a abertura. Isto não elimina o arrastamento, mas este é um efeito com que gosto de jogar por uma questão de estética e de expressão. O uso do bulb serve apenas para motivos estáticos ou quando quero um arrastamento extremo, como o das luzes de um automóvel em andamento.

Alguns poderão pensar que o ideal seria usar um rolo ASA 400 ou superior para fotografar nestas condições, mas eu não: embora a presença de grão possa conferir um efeito espectacular às fotografias nocturnas a preto-e-branco, quando a fotografia é a cores o grão excessivo é desastroso. Aliás, isto é verdadeiro mesmo com rolos de velocidade baixa: o Ferrania Solaris, que é um rolo que me fez explodir a cabeça pela beleza das suas cores, é inapto para a fotografia nocturna por causa do grão; mesmo com o Portra 160 preciso de ter algum cuidado para evitar que o grão seja demasiado intrusivo. Deste modo, prefiro usar rolos de velocidade baixa, o que tem a contrapartida de obrigar a usar o tripé. É um pouco maçador transportá-lo e estar constantemente a armá-lo e desarmá-lo (além de me tornar particularmente conspícuo), mas vale bem a pena. Os ganhos em nitidez são espectaculares. Claro que, se tivesse uma boa câmara digital, poderia fotografar com ISO 3200 e dispensar o tripé, sem o receio de as fotografias ficarem arruinadas pelo ruído – mas as máquinas capazes de bom desempenho com sensibilidades tão altas são proibitivas.

Para o preto-e-branco só experimentei um rolo: o Ilford FP4, que é o meu workhorse. Este rolo comporta-se maravilhosamente bem na fotografia nocturna: o grão é virtualmente inexistente, a nitidez permanece fantástica e é um rolo que, sendo límpido, consegue transmitir uma atmosfera excelente às fotografias nocturnas. Vou fazer outras experiências – especialmente com películas mais granulosas, para ver se o grão favorece o mood da imagem – mas, a menos que esteja muito enganado, tenho a impressão que vou voltar sempre para o FP4. Quando vi a fotografia acima pela primeira vez, ocorreu-me a ideia que as pessoas poderiam pensar que tinha usado HDR quando a vissem. Não – não usei: saiu mesmo assim. Tal é a qualidade do Ilford FP4.

M. V. M.

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