Preservando o património, Parte 1

OLYMPUS DIGITAL CAMERAAparentemente, e fazendo fé nas estatísticas do WordPress, os meus leitores não ficaram particularmente comovidos com a acção de despejo que serviu de tema ao meu texto de ontem. Este cabeça-de-burro que eu sou ainda não conseguiu perceber, apesar de escrever um blogue há mais de três anos, que nada do que extrapola da fotografia é lido. Pode ser música, literatura ou direito, que ninguém se importa. Resta-me voltar às questões de fotografia, antes que perca de todo o pouco prestígio que o Número f/ conquistou na internet.

Hoje tomei uma decisão importante. Importante para mim, evidentemente; não necessariamente para os leitores. Os muito atentos ao que escrevo saberão, eventualmente, que o meu pai, que teve uma morte prematura aos 53 anos, tinha uma máquina fotográfica à qual já fiz por várias vezes alusão: era uma Minolta Hi-Matic 7S, adquirida em meados dos anos 70 (não sei precisar em que ano ao certo). Pois bem: decidi entregá-la nas mãos competentes de R. S. D. para verificar o seu estado. É bem possível que passe a usá-la, mas mesmo que não o faça é um património da família que tenho interesse em preservar e manter em boas condições. Esta Minolta não está bem na mesma classe que a Olympus OM-2 que uso, mas é uma belíssima câmara. E não apenas quanto à sua qualidade, que é atestada por gente que sabe bem mais que eu destas coisas: é belíssima também na estética. É o tipo de máquina fotográfica de telémetro que segue a escola de design da Leica, embora com as extremidades quadradas, tal como a ovelha negra da Leica, a M5.

Esta máquina fotográfica tem, desde logo, uma característica que a distingue: é grande. Muito grande. Tão grande, de facto, que a minha Olympus OM parece uma miniatura quando comparada com a Minolta 7S. E é bastante pesada, mas não excessivamente – até porque o seu peso inclui a lente, que não pode ser destacada do corpo. É, pois, uma máquina com a qual o campo de visão se modifica por acção das perninhas do seu utilizador, que terá de aproximar-se ou afastar-se do motivo para obter o enquadramento desejado. A sorte é que a lente é boa: uma Rokkor 45mm-f/1.8. Não tem – sei-o por ter convivido tanto tempo com as suas impressões – a nitidez das Zuiko, Nikkor, Leica e Zeiss, mas tem uma qualidade mais que suficiente. E um desfoque belíssimo, melhor que o das Zuiko e ao nível das Nikkor.

O problema desta Minolta é ser, por essência, uma point and shoot. Ela tem controlos da abertura e dos tempos de exposição, mas são dois anéis extremamente finos e difíceis de manusear à volta da lente. O melhor, com esta máquina, é mesmo esquecer que tem estas funcionalidades e bloquear os anéis da abertura e do tempo de exposição na posição A (de automático), porque foi para este uso automático que ela foi pensada. O amador mais interessado poderá usá-la num modo completamente manual, mas é difícil.

Esta dificuldade está apenas na ergonomia, porque a Minolta 7S é tão fácil (ou difícil) de usar como qualquer outra câmara de 35mm; mas, para além da abertura e da exposição, também o ISO e o temporizador têm os seus comandos (através de patilhas minúsculas e desajeitadas) à volta da lente. Tudo isto torna-a profundamente desagradável de usar no modo manual. Além destes inconvenientes, há outros: o tempo de exposição mais rápido é 1/500 (o que se explica por o obturador ser de folha, e não de cortinas) e o fotómetro, que de resto funciona extremamente bem, mede a exposição em EVs. O que significa que a agulha que indica a exposição sobe quando a luz é escassa e desce quando é excessiva, o que pode causar confusão a quem estiver habituado a outros tipos de leitura da exposição.

Mas chega de defeitos – embora os apontados não sejam exactamente defeitos: as funções a que quem fotografa manualmente se habituou estão todas lá, mas esta é uma câmara automática que pode, em alternativa, ser usada manualmente. É esta a sua concepção. O visor é extremamente límpido e, apesar da vetustez da câmara, as linhas e a imagem sobreposta pelo telémetro são ainda bem visíveis (o que significa que o telémetro ainda está operacional, o que é uma excelente notícia). A focagem é fácil e rápida, o que faz desta Minolta uma boa câmara para fotografia de rua.

A Minolta do meu pai está, no geral, em boas condições. Surpreendentemente, o fotómetro trabalha bem, apesar de a pilha (de mercúrio) nunca ter sido mudada em quase quarenta anos. Todas as funções da câmara estão OK – esta é uma máquina fotográfica que sempre foi estimada e respeitada –, mas permaneceu demasiado tempo guardada, dentro do seu estojo, numa gaveta de roupa. Isto fez com que se desenvolvessem fungos no interior da lente. Evidentemente, ficou na oficina da Câmaras & Companhia para limpeza. Mesmo que não venha a fotografar com ela, insisto que esteja em boas condições de funcionamento. E quem sabe se não terei mais uma surpresa se optar por usá-la…

M. V. M.

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