Quatro anos

31 de Julho de 2010...
31 de Julho de 2010…

Foi no dia 31 de Julho de 2010 que comprei a minha primeira câmara digital. Comprei uma compacta porque a) não percebia nada de fotografia, b) como a fotografia digital é uma questão de zeros e de uns, não havia diferença entre as câmaras digitais (pensando bem, esta alínea pode ser subsumida à primeira), c) tinha vontade de fotografar e d) tinha pouco dinheiro. Esta vontade veio-me de um encontro, que guardarei para sempre na memória, com o fotógrafo Fernando Aroso, acontecimento que mudou por completo a minha apreciação da fotografia. Por outro lado, nessa altura andava a recolher assinaturas para a campanha presidencial de um candidato apartidário na Rua de Santa Catarina, aqui no Porto, pelo que havia sempre cenas a acontecer à frente dos meus olhos. Pensei que seria interessante capturar cenas como essas, pelo que, mal me apanhei com algum dinheiro disponível, fui comprar uma Canon Power Shot A3150is. Se descontarmos uma Agfa Pocket 1000, que me foi oferecida quando eu tinha treze anos e tratei de estragar ao fim de algumas semanas, a Canon foi, oficialmente, a minha primeira câmara.

Curiosamente, a Canon mostrou ser uma fonte de frustração e desespero desde muito cedo. Ao fim de dois meses já sonhava acordado com uma câmara melhor, mas era aquela que tinha e foi com ela que tive de me arranjar. E não me arranjei lá muito bem: as fotografias que fazia nessa altura eram muito fraquinhas. De facto, não faziam sentido nenhum. Nem sequer posso dizer que nelas já se via o que eu viria a fazer mais tarde; na verdade, é com algum embaraço que vejo hoje aquelas fotografias. A minha fotografia ainda não é o que eu gostaria que fosse, mas o que fiz nos primeiros meses era francamente deplorável: tudo desinteressante e mal executado. Acima de tudo, não havia uma ideia, não existia nada que pudesse ser considerado interessante, criativo ou original. Tentava fotografar o que via outros a fazer, tentando agradar a quem via as fotografias que mostrava (pensar que mostrava aquelas coisas é, em retrospectiva, extremamente embaraçoso).

Depois veio a E-P1, o que significou que fazia as mesmas fotografias desinteressantes com mais qualidade de imagem. Continuava a fazer o que pensava que ia agradar aos outros. Foi quando percebi isto mesmo que comecei a mudar a minha maneira de fotografar, o que aconteceu há cerca de dois anos. Levou-me mais um ano de aprendizagem – não da técnica, porque essa veio-me muito rapidamente, em boa parte graças ao workshop no Instituto Português de Fotografia – a perceber como podia dar algum sentido às minhas fotografias. Era afinal tão simples (e, ao mesmo tempo, tão difícil): bastava fotografar de tal maneira que as fotografias mostrassem a minha maneira de ver as coisas.

...18 de Julho de 2014
…18 de Julho de 2014

Esta é uma aprendizagem que nunca estará concluída. No dia em que pensar que domino a fotografia e sou inteiramente capaz de me exprimir fotograficamente, tal não significará que atingi a perfeição: significará apenas que assentei num patamar de mediocridade. Olho para trás e não sei dizer se estes quatro anos foram muito ou pouco tempo: evoluí muito – seria estúpido se não o visse e reconhecesse –, mas quero evoluir muito mais. Vendo as coisas assim, estes quatro anos foram muito pouco tempo e começo a pensar que teria sido bom ter começado muito mais cedo. Eu conheci, no primeiro ano da Faculdade, a namorada de um excelente fotógrafo amador do Porto, Vítor Tripologos; ela mencionou-me uma ou duas vezes que ele, então com cerca de vinte anos, era um apaixonado da fotografia. Hoje o Vítor tem uma obra profundamente interessante e um talento apreciável porque tem mais de trinta anos de experiência. E, sobretudo, porque começou quando era jovem. Eu comecei – se descontarmos a Agfamatic e algumas fotografias sem êxito com a máquina do meu pai – quando já tinha quarenta e seis anos. Tenho muito para aprender e perdi muitos anos que não recuperarei. Além disto, tive necessidade de voltar atrás e reaprender tudo de novo. Sim, estou a referir-me à minha conversão à fotografia convencional. Porque ninguém pode dizer que fotografa bem se não tiver passado por uma fase em que expôs películas. É com estas máquinas fotográficas que se aprende, não é com as digitais.

O que vai ser daqui para diante? Uma longa aprendizagem que nunca estará concluída. Foi nisto que me meti. Isto não me causa qualquer ansiedade ou apreensão, porque a fotografia é o melhor hobby que consigo imaginar. De tal maneira que não sei se posso chamar-lhe hobby; também não é uma ocupação, mas é certamente mais que um passatempo. Seja o que for, é algo que faço por gosto. E quem corre por gosto não cansa.

M. V. M.

 

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