Eu, Lomógrafo? (2)

lomography

Se o Lomography Earl Grey, que referi no texto de ontem, me der resultados subjectivamente mais interessantes que o Ilford FP4, como é que eu fico? Não seria a primeira vez que isto aconteceria comigo: eu tinha o Kodak Portra 160 como o meu rolo preferido para fotografia a cores e, de súbito, tudo mudou depois de experimentar o Ferrania Solaris, que caiu no planeta M. V. M. com o impacto de um asteróide de dimensões colossais. Nada me diz que não pode acontecer o mesmo desta vez.

Se isto acontecer, espero que não pensem que me vou tornar um lomógrafo. Contudo, devo dizer que não tenho, ao contrário de muitos, um preconceito de fundo contra a Lomografia. Há gente que critica esta filosofia de fotografar por as câmaras serem umas porcarias de plástico, mas essas pessoas não estão a perceber a essência da Lomografia. Devo dizer que, quando vejo fotografias de lomógrafos, por vezes me sinto como se levasse a fotografia demasiado a sério e estivesse a passar ao lado da pura diversão que é fotografar.

Há muito de bom a dizer sobre a Lomografia. Não há nada de mau ou lamentável em fazer fotografias divertidas, ou em fazer fotografias só por diversão (não é bem a mesma coisa). Eu sou bastante – mas, aparentemente, não o suficiente – hedonista, no sentido em que fotografo porque me dá prazer fazê-lo. Compreendo o que é o prazer de fotografar, tal como o facto de alguém querer fazer fotografias divertidas. A Lomografia pode parecer frívola, mas não é: ao contrário das pessoas que fotografam com telemóveis e phablets, o lomógrafo é criativo: não fotografa para colher uma imagem descritiva da realidade que se lhe depara, mas para lhe dar uma interpretação pessoal. A escolha de rolos excessivamente saturados ou fora do prazo de validade corresponde a uma opção criativa e estética. Ora, a criatividade e a estética são aspectos essenciais da fotografia artística, pelo que os lomógrafos inserem-se neste segmento. Preferia mil vezes ser um lomógrafo a ser uma dessas pessoas que parecem ter uma compulsão para fotografar tudo o que vêem com o que tiverem à mão e «partilhar» as fotografias no Facebook. A minha maneira de fotografar está, neste particular, muito mais próxima da Lomografia do que da iPhonografia.

A Lomografia é uma modalidade da fotografia convencional – ou analógica, se preferirem. As câmaras usadas pelos lomógrafos baseiam-se nas Lomo, Diana e Holga de fabrico soviético, que eram câmaras baratas e mal construídas, sem sofisticações como controlos de exposição, mas são câmaras de película. A Lomografia só faz sentido se forem usadas câmaras para película; o digital é inaplicável. Penso que posso dizer, sem incorrer em falsidade grosseira, que a Lomografia foi crucial para manter os fabricantes de película activos, facto que permitiu a revivescência de uma forma de fotografar que esteve ameaçada de extinção pelo advento da fotografia digital. Da mesma forma que os DJ mantiveram as prensas de vinil em funcionamento, a Lomografia evitou – ou ajudou a evitar – que a fotografia convencional desaparecesse. Devemos, no mínimo, reconhecer-lhe este mérito.

A Lomografia é para gente que se imagina muito cool? Certamente. As fotografias que os lomógrafos fazem são memoráveis, ao ponto de poderem ser admiradas como fotografias significativas? Não. Tal como não são de execução técnica perfeita, o que de resto é impossível com câmaras que não se podem controlar. Simplesmente, não são estes os objectivos da Lomografia, nem quem a adopta tem em mente fazer fotografias perfeitas. Apesar de tudo, as fotografias dos lomógrafos transmitem uma enorme sensação de diversão e alegria. Os lomógrafos, embora excêntricos (ou seja o que for que lhes queiram chamar), têm uma virtude que muitos adeptos da fotografia não têm: estão a borrifar-se para as questões técnicas. Com eles é seguro que não se vai entrar numa discussão estúpida e infrutífera sobre a «abertura equivalente». Sabem o que têm de saber para usar as suas máquinas de plástico e construção deplorável: calcular o tempo de exposição e focar à zona. A única coisa que os preocupa é divertirem-se a fotografar. O que, convenhamos, é algo que todos os amadores deviam aprender a fazer, em lugar de tentarem fazer obras-primas para angariar uns likes no Facebook ou imitar os (seus) mestres.

O que me separa da Lomografia é que espero obter algo mais da fotografia do que o mero divertimento. Quero fazer fotografias que me encham de satisfação quando as (re)vejo, porque não me basta fotografar apenas porque é giro. Quero transmitir algo mais com as minhas fotografias. Mas o factor diversão é muito importante, como o uso do Ferrania Solaris me ensinou.

É por tudo isto que, a despeito de não estar a fazer planos para me tornar num lomógrafo, aprecio e respeito a Lomografia. É bem possível que, se não fosse esta corrente, a fotografia convencional tivesse desaparecido.

M. V. M.

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