A Hasselblad 500 C/M e eu

Hasselblad 500 C/M

Se perguntarem a diferentes entendidos qual a melhor câmara do mundo, as respostas poderão variar e ser tão diferentes que se tornem antagónicas. Muitos, sobretudo os formados na era digital, preferirão uma DSLR com sensor 36×24, como a Nikon D810 ou a Canon 5D; outros preferirão as Leica; alguns, não dispostos a compromissos, elegem as câmaras de grande formato, as Graflex, Linhof, Toyo ou Sinar.

Pelo meio estão as câmaras de médio formato. Já todos sabem que eu desenvolvi a ambição de ter uma destas câmaras, que poderia ser a Yashica Mat 124G, mas esta é uma máquina fotográfica TLR, que terá sempre alguns problemas inerentes à sua espécie: a paralaxe, a impossibilidade de mudar de lentes e um obturador de folha metálica que não vai além de 1/500. Porém, quem já viu fotografias feitas com rolos 120 pode, eventualmente, concluir que não vale a pena o trabalho e a despesa de ter um sistema fotográfico de grande formato. E o mesmo pode ser dito se traduzirmos tudo isto para o domínio digital.

Na Suécia, durante o segundo terço do Século XX, um fabricante de máquinas fotográficas foi, discretamente, construindo uma reputação que levou a que as suas máquinas fotográficas fossem usadas pela NASA na aterragem lunar da missão Apollo 11. (Algumas destas máquinas tiveram de ser deixadas na lua, por questões de peso e de logística; se o leitor optar por passar lá as suas férias, traga-me uma, por favor.) O prestígio da Hasselblad assentou, fundamentalmente, nas suas máquinas de médio formato da série V (de Victor, nome próprio do Sr. Hasselblad).

Destas máquinas, as mais populares – se é apropriado chamar «populares» a aparelhos que eram caríssimos, em parte pela sua construção irrepreensível, com aço sueco e uma precisão imaculada – foram provavelmente as 500 C/M. Muita gente tem, ainda hoje, a ambição de adquirir uma destas máquinas. Elas foram as precursoras de uma nova linguagem na concepção e design das câmaras de médio formato, tendo-se-lhes seguido as Mamiya, as Zenza Bronica e as Pentax.

As Hasselblad da série V foram concebidas para ultrapassar as limitações das TLR – em particular a paralaxe. Depois de uma tentativa fracassada de usar obturadores de cortinas, de maneira a obter tempos de exposição mais curtos que 1/500, a Hasselblad optou pela solução de usar obturadores de folha metálica incorporados nas lentes. Deste modo, reverteram para uma tecnologia que pretendiam ultrapassar, mas os obturadores de folha têm, pelo menos, uma vantagem que era considerada essencial naquela época: permitem a sincronização do flash em qualquer tempo de exposição.

A maior inovação, porém, foi a supressão da lente que dirige a luz para o visor nas TLR. A 500 C/M é uma câmara reflex, que usa um espelho para transmitir a luz para o visor (o qual é montado no topo do corpo) como as TLR, mas usa uma única lente para o visor e para a exposição. Deste modo, a Hasselblad 500 C/M tem sensivelmente o mesmo volume que as TLR, mas evita o problema da paralaxe e torna a construção mais simples.

Com efeito, a 500 C/M é, além de simples, completamente modular: as lentes são intermutáveis e os rolos são carregados numa cassete que pode ser desmontada e substituída. O corpo propriamente dito não é mais que uma caixa de luz que alberga o espelho e o visor, bem como as ligações mecânicas necessárias à montagem das lentes e da cassete. Podem mesmo ser montados visores diferentes, o que inclui um com pentaprisma que possibilita uma visão TTL (o visor original, em tudo semelhante ao das TLR, inverte a imagem no plano horizontal). A 500 C/M é um desenvolvimento da 500 C que faculta o uso de ecrãs de focagem, para conferir ainda mais precisão à imagem.

A Hasselblad 500 C/M tornou-se, deste modo, num símbolo do melhor que podia ser feito na indústria fotográfica. A sua construção robusta, a modularidade, o uso de rolos de médio formato e, sobretudo, as lentes Zeiss de altíssima qualidade, fizeram dela uma das melhores e mais veneradas câmaras de sempre. Acresce a isto um design que ainda hoje é admirável e uma tactilidade que fazem desta uma máquina fotográfica em que apetece pegar e que induz uma vontade irresistível de usar.

M. V. M.

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1 thought on “A Hasselblad 500 C/M e eu”

  1. Belo texto, Manuel.
    Comprei uma 500c há dois meses e ontem revelei meu segundo filme feito com ela. Ainda tenho que aprender a brincar melhor com a criança – mesmo porque filmes de 12 poses têm de ser usados com muita responsabilidade – mas a experiência de fotografar com ela é realmente fantástica. Abraço

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