Crónica de uma tarde de Domingo

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Ontem foi domingo, dia de karaoke no café manhoso do outro lado da rua e, consequentemente, de fugir de casa para não aturar os urros de gente bêbeda e catraias histéricas a cantar Afinal Havia Outra. Evidentemente, aproveitei para fotografar um pouco, apesar de as minhas digitalizações estarem já a ocupar demasiado espaço no disco rígido do computador. Não foi a mais memorável das sessões fotográficas – estava confinado ao preto-e-branco, o que é uma espécie de anticlímax depois de ter experimentado o glorioso Ferrania Solaris 100 – mas devo ter feito qualquer coisa de interessante.

Depois de ter deambulado pela Zona Histórica, decidi dar a sessão por terminada por volta das 18h. Como me tem apetecido ler, fui à Fnac (que querem?, não há livrarias a sério abertas ao domingo…) e comprei o Volume IX dos Contos de Anton Tchékhov, edição da muito estimada Relógio D’Água com tradução directa do Russo de Nina e Filipe Guerra.

Há muito de bom a dizer sobre os contos de Tchékhov. São curtos e singelos, mas invariavelmente divertidos – num deles, Um Francês Estúpido, a personagem é um palhaço francês chamado Henri Pourquoi! –, cheios de ironia e de um sentido de observação agudo e certeiro. Leio os contos publicados nestes volumes como quem tira bombons de uma caixa e os come: com avidez e volúpia, por vezes refreando a leitura para fazer com que dure mais. A literatura russa é um mundo fascinante que todos deviam conhecer.

Como o vício da fotografia está completamente entranhado em mim e não dá sinais de abrandar, fui à secção de fotografia: queria comprar um filtro UV para as minhas OM. Já tenho um, mas tenho duas lentes e não me agrada ter de retirá-lo e colocar de novo sempre que troco de lentes (o que acontece com enorme frequência). Não havia. Aparentemente, não há procura para filtros de 49mm. Não fiquei particularmente irritado com o facto: talvez ficasse se não tivesse já um, mas, decididamente, a Fnac é só para quem gasta material mainstream. Ainda bem que há boas alternativas.

Adiante: ainda na Fnac, passei os olhos pelos livros de fotografia. Não há assim tantos à venda, mas os que há, se abstrairmos das xaropadas de Joel Santos, são bons. Um deles era The Americans, de Robert Frank, que folheei com o maior interesse. Robert Frank, judeu suíço nascido em 1924, recebeu uma bolsa da Fundação John Simon Guggenheim para realizar este projecto; veio por essa altura a conhecer Jack Kerouac, que é o autor do prefácio de The Americans. As fotografias deste álbum são, quase todas elas, sensacionais. Terão, porventura, mais interesse para os americanos do que para quaisquer outros povos do mundo, porque permite-lhes ver o país em que vivem através dos olhos de um estrangeiro, mas mostram um país de contrastes extremos através de uma lente perspicaz. Perspicaz e aguda, mas recorrendo a artifícios lo-fi que podem não ser do agrado de todos, desde a desfocagem até ao grão intrusivo. Contudo, são um documento e uma marca da geração Beat cujo valor histórico é fundamental.

Gostava de ter comprado este livro, mas com a AT a perseguir-me por causa de um IUC pretensamente não pago em 2008, €31 é demasiado dinheiro. O mais certo é eu vir a comprar The Americans quando este sufoco fiscal atenuar um pouco. Vale bem a pena.

M. V. M.

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