Fotografar fogo de artifício

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O fogo de artifício providencia um dos tipos de fotografia menos originais que existem, mas o que é certo é que toda a gente quer fazê-lo – mesmo aqueles que pugnam pela originalidade. Por que é que isto acontece?

É que fotografar fogo de artifício é um dos maiores desafios técnicos para o fotógrafo. Não há nenhum outro tipo de fotografia que se lhe assemelhe: o rebentamento do foguete é relativamente rápido, mas não tanto que se possa congelar o movimento; quanto à luminosidade, há que obter um equilíbrio porque a luz dos foguetes é extremamente intensa, tornando-se fácil sobreexpor, mas o plano de fundo pretende-se bem escuro. O que se deseja é uma luminosidade equilibrada, mas com um contraste muito alto. Isto não é nada fácil de se obter: demasiada exposição, e os rastos de luz surgirão indistintos, uma massa de luz sem qualquer interesse visual; se a exposição for curta, porém, não se chegarão a formar rastos de luz na imagem, que ficará severamente subexposta.

A fotografia de fogo de artifício é, na sua essência, uma exposição longa; o fotógrafo usará o modo bulb e um cabo disparador para prosseguir os melhores resultados. Contudo, pelos motivos mencionados no parágrafo anterior, a exposição não pode ser demasiado longa. Além da falta de definição a que aludi antes, há que ter em conta que, se o tempo de exposição for demasiado longo, toda a imagem sofrerá com o excesso de luz, resultando num céu demasiado claro do qual o fogo não sobressairá. Na minha primeira experiência a fotografar fogo de artifício, usei um critério puramente instintivo: deixei o obturador aberto desde o momento em que o foguete explodiu até àquele em que a bola de fogo ficou completamente formada, o que terá demorado cerca de dois ou três segundos. O certo é que resultou, embora a fotografia que mostro aqui não seja, esteticamente, a melhor que já fiz.

A abertura é outro problema. Escolher a melhor abertura coloca exactamente as mesmas dificuldades que nas exposições longas: não se podem usar aberturas demasiado grandes, caso contrário haverá excesso de luz. Muitas pessoas tendem a pensar que fotografar à noite implica necessariamente aberturas muito largas, mas isto só é verdade se se pretender congelar o motivo. No caso do fogo de artifício pretende-se exactamente o oposto, que é dar um pouco de arrastamento para que a bola de fogo se desenvolva por completo e aquilo que figura na imagem seja uma explosão completamente expandida e com os rastos de luz bem visíveis. O uso de uma abertura larga obrigaria a um tempo de exposição demasiado curto, o que redundaria numa fotografia falhada na qual apenas se veriam pequenos pontos de luz. Deste modo, a abertura a usar será entre f/5.6 e f/11, dependendo de um outro factor: a sensibilidade (da película ou do sensor).

Seria fácil imaginar que a fotografia de fogo de artifício exigiria valores de sensibilidade muito altos, mas isto seria desastroso: o grão e o ruído arruinariam a imagem. Esta última quer-se tão limpa quanto possível, sem nada que interfira na nitidez e no contraste. Como é de boa prática nas longas exposições, a sensibilidade deve ser baixa: ISO 100 ou, no máximo, 200 – e nem isto é garantia de ausência de grão ou ruído se tivermos uma câmara com sensor pequeno ou usarmos uma película que não tenha predisposição para exposições longas (como é o caso do Ferrania Solaris, que em tudo o resto é um rolo maravilhoso). Tal como acontece na lei da reciprocidade, que versa as relações entre a abertura e o tempo de exposição, a abertura deverá estreitar num f/stop se se dobrar a sensibilidade: se usarmos ISO 100 e f/5.6, ao passarmos para ISO 200 devemos mudar a abertura para f/8. E vice-versa.

É um pouco difícil tipificar e aconselhar configurações da câmara – até porque a minha primeira experiência, que correu bem tecnicamente (mas nem por isso na estética, em parte por motivos que referi aqui), foi apenas há duas semanas e foi a única até agora. Uma boa exposição será, pelos dados EXIF de boas fotografias que consultei e alguns conselhos recebidos, qualquer coisa à volta de 3 segundos de exposição, f/16 de abertura e ISO 200, mas as fotografias que fiz foram com ISO (ou ASA) 100, f/5.6 e cerca de 2 ou 3 segundos de exposição. (A fotografia de fogo de artifício é um bom pretexto para fazer alguns cálculos complicados tendo por base a lei da reciprocidade!)

Já que estamos nos conselhos, será bom seguir aquele que qualquer website fornece: nunca fotografem só a bola de fogo. Estas fotografias precisam de um contexto. Incluir pessoas ou outras cenas no solo será, deste modo, uma boa ideia.

M. V. M.

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1 thought on “Fotografar fogo de artifício”

  1. Boas MVM,

    Para a próxima teste deixar em modo bulb e deixe o obturador aberto durante bem mais tempo, de modo a apanhar 2,3, 4 foguetes.. mas vá sempre tapando a lente “entre foguetes” de modo a não deixar entrar luz. A própria tampa da lente pode servir, tendo cuidado para nao introduzir “camera shake”, o pano preto também faz o serviço.

    Cumprimentos.

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