Algumas notas à volta do Ferrania Solaris

Img - 033BComprei o Ferrania por ser um rolo barato. A minha intenção era fazer fotografia nocturna, o que iria implicar entrar num domínio que já conhecia, mas com uma câmara diferente. E com o desafio suplementar de ter de fazer bem à primeira, por não ter um ecrã para visualizar a fotografia nem poder apagar uma que tivesse falhado e tentar de novo. O risco de fazer fotografias falhadas era assim muito grande e poderia ter implicado um desperdício colossal de fotogramas.

Pela altura em que comprei o Ferrania Solaris tomei a decisão de ir mais longe na fotografia nocturna e fazer exposições longas. Isto tornou-se possível depois de ter um cabo disparador. As razões que referi anteriormente para justificar a compra de um rolo barato aplicam-se também aqui: não queria desperdiçar fotogramas caros.

Afinal de contas, o rolo que comprei para ser uma cobaia (e para não chorar o dinheiro que gastei com ele no caso de fracasso) provou ser o melhor rolo para cores que já usei. Não é o melhor, notem bem, em termos de qualidade absoluta: esse é o Portra 160. Simplesmente, o Ferrania é um rolo que, pelo preço, faz quase tudo bem. O Kodak Portra 160 é excelente na maioria das situações fotográficas; mas, quando falha, os seus fracassos são monumentais. Por exemplo, foram muito raras as fotografias que fiz – e eu já usei quatro rolos Portra – em que consegui obter um céu azul plausível. O Ferrania nunca me deu céus parecidos com o fundo de uma piscina.

Fiz uma experiência durante o tempo em que usei o Solaris 100: usei um filtro UV. Não sei dizer até que ponto o uso deste filtro se repercutiu na qualidade da descrição das cores, mas sei que, nas fotografias que fiz com ele à frente da lente, as cores surgiram sempre neutras. Especialmente o azul do céu. Nunca me tinha lembrado de usar este filtro quando experimentei outros rolos a cores, pelo que é bem possível que a minha apreciação acerca do Solaris tenha sido tão favorável por causa dele. Mas também é verdade que as fotografias feitas com o Ferrania sem usar o filtro UV saíram francamente boas. É algo que terei de averiguar no futuro.

Foi com este rolo que fiz as primeiras longas exposições usando a Olympus OM-2. Aqui a única certeza é a incerteza nos resultados. Comecei as minhas longas exposições fotografando fogo de artifício, experiência que correu relativamente bem. Os únicos problemas foram não ter usado uma abertura mais estreita – usei f/5.6, o que deixou entrar mais luz do que a necessária – e ter fotografado de um local que acabou por tornar as fotografias pouco interessantes: a minha varanda. (Já escrevi sobre isto aqui: quis conciliar a sessão fotográfica com um filme excelente que passou nessa noite.) De qualquer modo, as fotografias não foram um desastre completo.

Img - 011B

O que não correu nada bem foi a digitalização destas longas exposições, em particular as do fogo de artifício. Por alguma razão que me ultrapassa, as digitalizações apresentavam ruído. O facto de surgir ruído já é, só por si, bastante bizarro, mas a minha perplexidade atingiu níveis mastodônticos quando percebi que o ruído presente envergonharia a pior das câmaras compactas. Eu já me tinha apercebido que a digitalização induzia ruído: talvez o scanner interprete o grão como ruído. O que é mais incrível, porém, é que o ruído mais presente na imagem é o de crominância.

Senti-me horrorizado. Isto não é, evidentemente, uma falha de quem digitalizou: é uma questão que já vi debatida no espaço de comentários de um website de fotografia, pelo que parece ser uma consequência necessária da digitalização. Não faço ideia por que isto acontece; tudo o que sei é que as fotografias ficaram como se tivessem sido feitas com um telemóvel. O uso da ferramenta de redução do ruído ajudou, bem como a acentuação dos negros, mas o problema continua perceptível e é de tal forma grave que só apetece não voltar a digitalizar e encomendar ampliações directas do negativo. Afinal de contas, o ruído foi um dos factores que me fez perder a simpatia pela fotografia digital. Agora o scanner veio devolver-mo. Com juros. Oh well.

M. V. M.

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