Ferrania Solaris 100, la gioia di vivere

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Pode um rolo ser paradoxal ao ponto de ser, em simultâneo, o pior e o melhor que já usei? Pode. Esse rolo é o Ferrania Solaris 100, fabricado pela companhia italiana que, em 2013, decidiu ressuscitar a produção de película sob o nome FILM Ferrania (embora a marca dos rolos continue a ser Ferrania).

Por que digo que este é o pior filme que já usei? Eu tendo a apreciar película por critérios de rigor e precisão. Um bom rolo a cores é aquele que descreve as cores sem introduzir variações em relação à percepção do olhar. (Foi por este motivo que fui tão crítico quanto ao Kodak Ektar 100.) De um rolo a preto-e-branco exijo contraste e uma boa descrição das sombras e das altas luzes. Tenho, deste modo, critérios muito objectivos e exigentes para avaliar os rolos que uso. Ora, o Ferrania Solaris 100 é um rolo que satura as cores em demasia. A sua descrição das cores é, no geral, irrealista, o que deveria, por princípio, levar a que eu excluísse este rolo da minha lista. Se eu quero exactidão nas cores, não é o Solaris que ma vai dar.

Mas terão as coisas de ser assim tão frias e objectivas? Antes de mais, as cores são saturadas, mas são correctas. O Ferrania não transforma vermelhos em roxos nem azuis em cianos, como o Fuji Superia 200 e o Kodak Ektar 100. Os verdes são mesmo verdes, os vermelhos são inequivocamente vermelhos e os amarelos não deixam dúvidas de o serem. Não há, neste rolo, nenhuma cor que seja adulterada por tingimentos espúrios. Apesar de haver uma predominância de matizes verde e amarela, as cores, posto que saturadas por acção destes tingimentos, são fiéis à realidade. Por exemplo, nunca experimentei nenhum rolo que descrevesse tão bem os vermelhos. Todos os rolos a cores que usei até hoje falham com o vermelho, mas o Ferrania não.

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Para além das discussões sobre a veracidade das cores, há o prazer visual que se retira das imagens. Sob este ponto de vista, o humilde Ferrania Solaris 100 é o melhor rolo a cores que já usei. A saturação está lá e pode ser demasiado intrusiva em certas condições – nada que não possa ser facilmente corrigido com os comandos HSL –, mas dá prazer ver cores assim saturadas e vibrantes. Os tons mais saturados são os verdes e os amarelos, o que confere às imagens algo que só consigo descrever como alegria. As pessoas que têm a mania de usar expressões que lhes parecem muito inteligentes gostam – se é que essa moda ainda não passou – de empregar o adjectivo «solar» para descrever estados de alegria e boa disposição, e nesse sentido o nome Solaris está muito bem escolhido: este é um rolo solar, cujas imagens transmitem instantaneamente sensações agradáveis. Por qualquer sortilégio, esta saturação dos verdes e amarelos torna as cores bonitas. É uma ilusão, evidentemente, mas toda a fotografia também o é e nós não nos queixamos.

Apesar desta alacridade na descrição das cores, o Ferrania Solaris 100 é um rolo de uma qualidade surpreendente. Rolos como o Agfa Vista tendem a saturar, mas fazem com que os tons sejam fortemente adulterados. No caso do Agfa, os castanhos surgem avermelhados e os verdes têm uma predominância de amarelo que o torna num rolo antiquado e, por vezes, desagradável. O Ferrania não: apesar de poder parecer o tipo de rolo que os apreciadores da Lomografia gostam, é relativamente neutro – mais que o Portra 160, que custa quase quatro vezes mais.

Um rolo que custa apenas €2,20 não tem o direito de ser tão bom, nem de produzir imagens tão resolutamente alegres e eufóricas como este Ferrania Solaris 100. Mesmo sendo um rolo com estas características, não deixa de ser imensamente competente. Os seus excessos são do tipo benigno e, de resto, são facilmente corrigíveis na edição de imagem. Nem sequer é preciso muito para essa correcção ter êxito: basta retirar um pouco de saturação aos verdes e amarelos – mas o mais provável é que se reverta para as cores originais depois do trabalho de edição (como aconteceu com as imagens que mostro), porque a saturação faz parte da alma deste rolo.

Se recomendo o Ferrania Solaris 100? O mais vivamente possível! Aliás, este vai passar a ser o rolo a cores da minha preferência. E não apenas por ser barato: o Kodak Portra 160, que tem sido o meu favorito, é mais preciso – mas não me transmite, de modo nenhum, a sensação de contentamento que experimentei ao ver as digitalizações do Ferrania. Este factor subjectivo é muito importante. Tão importante que torna o Ferrania Solaris num verdadeiro campeão.

M. V. M.

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1 thought on “Ferrania Solaris 100, la gioia di vivere”

  1. Gostei do tom desse texto! Não sei o porque. Deve ser por o assunto ficar em torno da palavra “alegria”. Seus textos, os quais eu sempre leio, me parecem sempre com um tom de reclamação. Esse não. Fala de alegria e de boa surpresa.
    Parabens!

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