Por que é que as minhas fotografias ficam sempre desfocadas?

IMG_0374No Sábado fui a um evento para o qual não fora contratado nenhum fotógrafo profissional. O evento era uma sessão comemorativa e teve lugar à noite, numa sala relativamente mal iluminada. A única pessoa que se predispôs a fotografar usava uma câmara compacta. No dia seguinte, a publicação das fotografias da sessão no Facebook foi acompanhada de um pedido de desculpas por estarem desfocadas.

Não, não estavam desfocadas. Esta é uma confusão a que já aludi neste blogue: as pessoas tomam a falta de nitidez da imagem como uma deficiência da focagem, quando o pobre do sistema de focagem automática da câmara não tem culpa nenhuma. Mesmo se é certo que a focagem automática por detecção de contraste que equipa as compactas nem sempre funciona bem, naquelas circunstâncias havia inúmeros pontos contrastantes, pelo que não era este o problema.

Se nos dermos ao trabalho de analisar bem as fotografias que se publicam no Facebook, poderemos eventualmente chegar à conclusão de que a maioria delas tem um problema de nitidez. Isto não acontece por inabilidade de quem fotografa – pelo que aquele pedido de desculpas era afinal escusado –, nem por uma falha no sistema de focagem. Acontece por uma razão um pouco mais complexa e inescrutável aos fotógrafos casuais, que tentarei explicar da maneira mais simples de que for capaz:

As câmaras – todas elas, compactas incluídas – precisam de um tempo de exposição, i. e. de um período durante o qual o obturador vai permanecer aberto até captar luz suficiente para registar a imagem. Este lapso temporal, ao qual também se chama – posto que equivocamente – velocidade do disparo, é tanto maior quanto menor for a intensidade da luz que incide sobre o objecto a fotografar. Quando se fotografa à luz do dia, com boas condições de luminosidade, esse tempo de exposição é extremamente curto; não é mais que uma fracção de segundo. À medida que a luz vai diminuindo, porém, vão ser exigidos tempos de exposição cada vez mais longos. No caso de uma sala mal iluminada – e dependendo de outros factores que não vou desenvolver para já, para não tornar tudo mais complexo do que tem de ser –, os tempos de exposição podem variar entre um décimo de segundo e um segundo.

Ora, durante este tempo, qualquer movimento que seja sentido pela câmara vai provocar perda de nitidez. O movimento mais susceptível de interferir com a nitidez é o que é transmitido pelo nosso corpo. Por mais firmes que sejam as mãos do fotógrafo, haverá sempre algum tremor que vai induzir perda de nitidez. Esta perda denomina-se distorção por arrastamento e chama-se assim porque o seu efeito típico é que os motivos surjam com rastos, que são tanto mais longos quanto mais prolongado for o tempo de exposição. No caso de motivos estáticos, esta distorção acontece por haver um movimento da câmara que faz com que esta oscile e seja incapaz de obter uma imagem nítida – do mesmo modo que não somos capazes de ver os pormenores de um objecto se estivermos em movimento.

Há três maneiras de contrariar esta distorção por arrastamento. A primeira, que é a que vem imediatamente à ideia quando se tem uma mente predisposta a coisas da técnica, é aumentar o valor da sensibilidade à luz do sensor. Simplesmente, isto não é viável em câmaras como as compactas. O aumento da sensibilidade, que se exprime em valores ISO, tem uma repercussão extremamente negativa sobre a qualidade da imagem, que é o surgimento de ruído. Os fabricantes sabem que é assim e sabem também que quanto mais pequeno for o sensor maior é a quantidade visível de ruído, pelo que limitam o uso da sensibilidade ISO nas câmaras compactas a valores que não são completamente destrutivos para a qualidade da imagem.

A outra maneira é congelar o movimento usando o flash. Contudo, o flash não é o que muitas pessoas pensam: o seu alcance é limitado. Não contem com que o flash vá iluminar um objecto do outro lado da rua, porque tal não vai acontecer. O alcance do flash é tanto mais limitado quanto mais pequeno for, pelo que aquele flash minúsculo que adorna o painel frontal das compactas apenas iluminará um objecto que esteja a uma dezena de centímetros. O que não ajuda quando se quer fotografar interiores mal iluminados, não obstando assim a que a distorção por arrastamento se produza. Curiosamente, o iPhone tem, neste aspecto, um desempenho melhor que as compactas, porque o seu flash é mais eficiente que o das compactas – mas mesmo com este smartphone é impossível evitar a distorção por arrastamento quando o motivo está a mais de três dezenas de centímetros de distância.

O único meio eficaz de obter uma imagem nítida com uma câmara compacta é montá-la num tripé. Isto resolve quase todos os problemas de nitidez ao evitar o estremecimento introduzido pelas mãos – desde que se use o temporizador da câmara para que ela dispare sozinha, ou se recorra a um cabo disparador –, mas não evita que os movimentos do próprio motivo surjam com rasto. Só é possível conseguir imagens nítidas em ambientes mal iluminados usando uma câmara com um bom desempenho em sensibilidades ISO elevadas e uma lente com bons valores de abertura. Infelizmente, são muito poucas (e muito caras) as compactas que preenchem estes requisitos. A melhor coisa que o proprietário de uma compacta pode fazer é começar a amealhar para comprar uma câmara capaz de melhores prestações.

M. V. M.

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